segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Desespelho...

por Ricardo Gnecco Falco

Era estranho...


Beijava bocas sem rostos como se buscasse o antídoto para uma latente dor. Explorava corpos desprovidos de nomes e em suas toscas pilhas me perdia. Trilhava caminhos opostos, impostos; sobrepostos... Chafurdava na lama impiedosa da madrugada, mergulhando de cabeça nos bueiros, poços. Chegava a ser poético, mas insano.


Dor de amor.


Ter de passar por tudo isso, para só então começar a me perguntar: Para quê? Ter que atingir o fundo e só lá embaixo descobrir que fora eu mesma a saltar... Estar dentro de uma situação claustrofobicamente real e então perceber que na realidade fora eu mesma a me trancar ali. Era tudo tão simples. Tudo tão complexo...


Tudo tão contraditório.


O telefone tocava. Vibrava. Roía. Escandalizava... Minha cabeça girava. Sentia o gosto na boca borrada que o espelho em primeiro plano delatava, escondendo a metade do corpo tombado e exaurido sobre a cama, ali atrás... Recompensado. Entorpecido.


Eu queria que tudo fosse diferente.


Que fosse tudo diferente... Olhava-me no espelho daquela espelunca e não me encontrava do outro lado. Na verdade não sabia mais de que lado estava; qual era o lado certo... Onde estava? Quem eu era? Por que fizera aquela tatuagem horrível que a menina do espelho me mostrava? E quem eram os caras deitados na cama, ali atrás? Não...


Não sabia mais quem eu era e nem o que eu fazia.


Aliás, o que eu fazia ali...? Que lugar era aquele? O que eu havia tomado...? Eu não queria ter estado no meio de toda aquela gente. Não sabia se atendia aquele maldito telefone, ou se me escondia. Eu não queria ter estado ali! Humilhada... Usada... Eu só queria que tudo aquilo fosse diferente.


Vil.


Eu estava magra. Engraçado... Sempre quisera ser magra. Passara a adolescência inteirinha lutando contra a balança; me contendo, segurando. Sempre desejara ter um corpo assim. Mas não assim... Sabe quando a gente se olha e não acredita que seja a gente naquela foto? Era assim que eu olhava pra mim naquele espelho... Sempre quisera ter um corpo daquele. Sem nenhuma gordurinha. Mas não daquela forma. Não daquele jeito. O corpo tão sonhado...


Em meio a um pesadelo.


Não sei quanto tempo fiquei olhando para mim mesma, dentro daquela pocilga; diante daquele espelho que parecia quebrado. Aquele maldito telefone se esgoelando... Talvez o tempo necessário para que eu pudesse me reconhecer naquela imagem. Despertar. Sem a maquiagem, a máscara... Assustadoramente real. Encontrar-me. Descobrir-me. Ali, nua, durante um curto período de lucidez.


Ensandecidamente lúcida...


Eram doses pequenas no início. Passavam quase que despercebidas. Imperceptivelmente absorvidas. Depois era o efeito a passar rapidamente. Tão rápido que nem mais se fazia sentir. Não... Não estou falando sobre drogas. Também não estou afirmando que não as usasse. Mas nenhuma delas poderia sequer aproximar-se do efeito que as tais lembranças surtiam em mim. Eu repassava as cenas em minha mente... Uma a uma.


Confusa mente...


Geralmente quando acordava. Era quando a cabeça parecia estar ainda livre do cimento que a insana realidade, no final do dia, como um fardo insustentável, em minha mente incutia. E só nos dias bons isso acontecia. Pois a dor de cabeça, normalmente, já me acompanhava desde quando levantava. Assim como a ressaca, o enjôo, a tontura...


A culpa.


Poesia. Herege; mundana... Mas poesia. Eu abrindo os olhos e encontrando... Ele. Os objetos, assim como as pessoas, passando como se estivessem, todos, em câmera lenta. E m c â m e r a l e n t a . Era sempre ele... Como o vento, seus dedos acariciando meus cabelos, sua voz doce reverberando em meus ouvidos junto ao som da melhor banda de rock do mundo...


O telefone não parava de tocar.


... Salvando-me; resgatando-me daquele matinal momento perdido, onde eu não era eu. Onde o que eu fazia não era eu a fazer. Onde o que eu queria era nada mais querer... Nada além de estar ali, com ele... Nos braços dele novamente. Segura...


Salva.


Era o instante eternizado no fundo de minha mente. A fronteira final de minhas lembranças. O derradeiro território. A essência da minha alma. O meu sonho mais real. O estar sendo; tendo sido, para sempre... Perfeito. O Nirvana...


A mentira.


Brotavam então as cenas que se misturavam à realidade daquele sonho; como se tudo fosse um devaneio irreal; mesmo que irremediavelmente verdadeiro. Os flashes, sussurros, gemidos... Os corpos em cima do meu... Dançando como que enlouquecidos. Enlouquecida. O entra e sai lúdico, sentimentais espasmos cleptomaníacos. Roubando-me de mim mesma; assaltando-me, levando-me... Munidos apenas da arcaica sofreguidão.


E desespero.


Alçando um vôo imaginário chegava ao fim de mais aquela noite, em silêncio profundo. E do mundo, lá de onde saltara rumo ao meu, vinha o som do telefone que me caçava e enlaçava como a um objeto sem graça, sem vida... “Fria”, um toque me dizia. Lá do fundo... Da superfície plana e macia, a me olhar de cima; superficialmente.


O espelho.


Encarava os olhos que me encaravam e não me viam; que enxergavam apenas a imagem despontada, com extrema apatia. “Frígida?”; “Insensível?...” Como eles ousavam acusar-me enquanto eu não apontava ninguém?! Eu não recusava ninguém! Irritava-me isso... Mesmo. Queria fechar os olhos novamente.


Mas eu já era refém...


Tentava sair dali; daquele emaranhado de restos, noites... Daquela fartura de carnes, guimbas, sexos... Daquele vazio compulsivo e gelado. Meu corpo é que já não aceitava mais. Meus olhos, naquele amórfico pedaço de vidro, também não brilhavam mais. Minha mente, disforme, já não me refletia mais...


Estava doente.


Física, mental e espiritualmente. A fuga, remédio ineficaz, já não me levava adiante. Não mais. Queria atirar longe aquele maldito telefone que não parava de tocar, avisando sobre o término de mais um período... Mais um pedaço vendido. Perdido. Não conseguia achar minhas roupas, nem apoio nas paredes que me cercavam. Que conspiravam, me prendiam; delatavam...


Queria era poder ir embora.


O corpo tombado, vencido; o olhar a fixar-se numa cadeira vazia. Solitária como cada um ali dentro daqueles quartos, a esperar por um colo que nunca viria. Sabia muito bem disto... O gosto amargo na boca, a azia... Eu queria muito sair dali, de qualquer jeito; simplesmente levantar e caminhar. Quebrar aquele espelho. Atravessar aquela porta. Sem rumo ou plano. Mesmo sem volta.


Eu só queria ir embora...


* * *

6 comentários:

  1. Ricadro, adorei seu texto, cai por acaso no seu blog e percebi que a "queda" valeu a pena.
    Achei muito interessante e gostei da maneira que você escreve...enfim, não costumo deixar comentários, mais achei que desta vez, seria merecido. rsr

    Abraços
    Gra

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  2. Valeu, Gracielle!

    Que bom que gostou do conto! Fico feliz que tenha deixado o comentário, pois é através dele que posso ter a certeza do objetivo alcançado...
    Pois a função maior de qualquer mensagem é percorrer o caminho entre o emissor e o receptor (escritor - leitor).

    Obrigado pelo retorno e, sobretudo, pela leitura!

    Grande abraço,

    Paz e Bem!

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  3. Oi, Ricardo! :) Eu recebi o seu convite por e-mail. Muito obrigada pelo elogio quanto ao meu blog, viu. E por seguir também. Sempre que quiser opinar lá, sinta-se à vontade!

    Eu ainda não li todos os posts aqui e, pra ser sincera, não sei nem porque parei nesse exatamente. Mas sei que o título dele me chamou a atenção pela criatividade e eu comecei a ler. Você escreve maravilhosamente bem. De forma intensa, densa. Gostei muito. Vou seguir o blog também e depois passo aqui pra ler e comentar nos outros :)

    Parabéns!

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  4. Obrigado, M.F.!
    Fico muito feliz a cada vez que um novo comentário aparece por aqui... É sinal de que mais uma pessoa leu o conto e deu sentido ao objetivo principal de cada um dos textos aqui postados: chegar até o maior número de pessoas possível!
    Agradeço sobretudo pela sua leitura, M.F., e valeu pelo "feedback" deixado aqui!
    Seja muito bem-vinda e volte sempre!

    Grande abraço,

    Paz e Bem!

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  5. Oi Rick, lendo outra vez esse seu conto, que faz a gente se angustiar junto com a personagem, pensei de novo que no final ela entraria no espelho pra viver o avesso do avesso de sua vida. Muito bom, bom demais esse seu conto. Paz e Bem e abraços

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    1. Obrigado, minha grande amiga "virtual" e escritora, Neli!
      :)
      Paz e Bem!

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