segunda-feira, 4 de junho de 2012

Antologia DESENCONTOS

Organizador: Ricardo Gnecco Falco 

A produção de um livro é algo extremamente complexo. Principalmente, quando a obra em questão trata-se de uma coletânea de contos, de temáticas diversas, de diferentes escritores/estilos. Uma antologia de contos sem nenhuma afinidade, nenhuma linha de conexão, nada em comum. Exceto... Exatamente isto.
Reunindo 13 (treze) contos ficcionais de 7 autores independentes, sem fins lucrativos e/ou comerciais, a antologia DESENCONTOS nasceu da união de diferentes forças.



Além dos autores, vários outros profissionais do livro participaram do processo da produção deste mimado rebento. 
Desde a criação e apresentação dos textos originais, avaliados então em uma reunião para escolha das obras que formariam o presente livro (conselho editorial), os escritos ainda passaram por algumas revisões textuais (coordenadas por uma equipe de revisores), depois pelo processo de diagramação (realizada pelo designer gráfico que vos escreve :-), até a finalização propriamente dita do produto livro (impressão do miolo, da capa, acabamentos, fechamento de arquivo - e-book - e remessa dos exemplares impressos).





Partindo da reflexão da importância da vivência de cada fase que compõe o desenvolvimento de um projeto de produção de um livro (físico e virtual), surgiu a presente obra. 
  
Da criação intelectual ao produto final, várias etapas foram cuidadosamente executadas por uma afinada e verdadeira equipe de Produção Editorial. 
  
O resultado foi esse aí abaixo, a antologia DESENCONTOS.













Link para a versão eletrônica da obra (e-book):



Boa leitura!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Delirium Tropicalis

por Ricardo Gnecco Falco



Avistara a mesa recém-liberada do outro lado do salão.

O restaurante estava lotado. O centro da cidade estava lotado. O metrô, pela manhã, lotado. As calçadas, já na hora do almoço, lotadas. A galeria, o elevador... Provavelmente, lembrou-se das pilhas de relatórios que lotavam sua sala em algum prédio próximo àquela rua, também lotada.

Correu.

Aquele seria possivelmente o único momento somente dele no dia e, driblando as bolsas dependuradas nas costas das cadeiras, percorreu com desenvoltura o labirinto formado entre as mesas lotadas de clientes famintos. Gente como ele. Executivos, consultores, empresários... E, sem parcimônia, se jogou à frente das duas estupefatas moças que já se preparavam para a posse daquele almejado pedaço de madeira.

Praticamente delas.

Duas jovens secretárias, uma delas visivelmente grávida, e que há bastante tempo esperavam o longo final da degustação que o casal anteriormente ali sentado teimara em empreender, descompassivo ao extremo. Cercaram a área ao redor do disputado altar que exaltavam em silêncio com os olhos e, então... Aquilo.

Uma verdadeira invasão bárbara.

O rapaz traçara uma rota inimaginável por entre as apertadas mesas do estabelecimento, atingindo, com maestria, o solo no qual fincara sua bandeja contendo o prato de salada, talheres e a garrafinha de mate natural. Da casa. Nada nem ninguém ali conseguiria ser mais cruel, insensível e maquiavélico do que ele.

As coitadas das moças, indefesas, de bandejas nas mãos e incredulidade nos rostos, não puderam contar sequer com os olhares possivelmente recriminadores das pessoas em volta. Mesmo cercadas por tanta gente, as duas tornaram-se vítimas passivas de um crime sem testemunhas, ou registro. Praticamente, ninguém viu ou percebeu o desenrolar daquela cena; daquela manobra asquerosa, covarde.

Uma perfeita jogada de mestre.

Mesmo que trapaceiro, cruel, insensível... Mas sim, um mestre. O rapaz parecia realmente nem se incomodar com o ato que cometera. Como se “se dar bem” fosse o lema de sua vida e um glorioso destino pertencesse indubitavelmente aos mais espertos, como certamente ele se julgava. Demostrava, de fato, estar orgulhoso de si e de suas atitudes.

Desdém.

Mas, mesmo do alto de sua aparente prepotência, não percebera a senhora que o observava de longe. Na verdade, quase ninguém notou a mulher sentada do outro lado do salão, na ponta oposta ao local do ocorrido.  

Uma senhora muito estranha.

Aparentando sabe-se lá qual idade, levantou-se calmamente. Pegou sua bandeja com o prato já vazio e, arrastando sua longa saia, caminhou, da mesma maneira que se erguera, até as duas moças, ainda paradas, de pé, no centro do salão, à procura de algum lugar onde pudessem, finalmente, agora apenas deglutir o conteúdo já gelado de seus pratos.

Mostrou-lhes a mesa estranhamente ainda vazia de onde saíra e, na sequência, terminou seu trajeto bem ao lado do jovem executivo, entretido com sua comida saudável. Então, no exato momento em que as duas mulheres, enfim, arrumavam-se na outra mesa, no extremo oposto do salão, ela sentou-se calmamente diante dele.

Uma senhora de feições oblíquas.

Não conseguiu entender sequer uma das várias palavras que a velha proferiu, pois com o restaurante lotado, em plena hora do almoço no centro da cidade, o barulho estava uma loucura. Parecia outra língua. Talvez Latim; ou algum dialeto há muito esquecido. O fato é que o tom ameno com que foram ditas estas palavras contrastava e muito com o brilho que recebia daquele par de olhos sinistros, fixados nos seus como lanças afiadas.

Mumificados.

Perdeu a fome. A noção do tempo e espaço. As batidas do coração, audição, tato. Até a cor. À noite, sonhou com aquela figura estranha e com o som tenebroso daquelas palavras repletas de significados desconhecidos.

Ficou algumas semanas sem aparecer novamente naquele estabelecimento.

Quando deu as caras finalmente por lá, estava bem diferente. Mais magro, abatido, com olheiras gigantescas e um olhar desesperador. Tenso, ao extremo. Mas, ao avistar o conhecido salão completamente lotado, pareceu formar-se um micro sorriso no canto de sua boca. Correu no instante em que percebeu uma mesa a vagar.

Sentou-se, com muita pressa.

Comia tão rápido que as pessoas em volta chegavam a comentar. Entre uma garfada e outra, olhava em todas as direções, como se um perigo iminente pudesse surgir de qualquer parte, num ângulo de 360 graus naquele salão.

Atormentado.

Talvez por causa de seu agir nervoso, o grupo da mesa ao lado terminou rapidamente a rodada de sobremesa e não tardou em levantar. Mal as pessoas retiraram as bandejas de cima da mesa, o bem vestido rapaz praticamente saltou de onde estava, ainda mastigando alguma coisa, para cima dela.

Afoito.

E a manobra repetiu-se por diversas vezes, aumentando gradativamente o mal-estar que acabou tomando conta de todo o salão. Várias pessoas deixaram o restaurante às pressas e muitos clientes abandonaram seus pratos ainda não terminados.

Assustados com aquilo.

O homem não conseguia mais ficar parado em uma mesa só. A única exceção era se todas as demais estivessem lotadas. Se alguma vagasse, mesmo que do outro lado do salão, ele levantava e saía correndo, desesperado, com a bandeja na mão, até alcançar esta nova mesa liberada e nela arranjar-se. Podia estar no meio de uma garfada, ou acabado de sentar-se, o que fosse...

Ele era impelido sempre a pular para a próxima mesa que vagasse.

Isto lhe causara um estado de nervos tão desconcertante que em suas feições podia-se ver uma angústia profunda. O oposto do que fora visto naquela vez, semanas atrás, quando ele parecia feliz com o seu “feito”; como se estivesse mesmo contente pela pernada que conseguira dar naquelas duas coitadas, roubando-lhes a mesa e rapidamente acomodando-se, em meio ao restaurante lotado.

Satisfação.

Diferentemente de agora, pois a amarga expressão no rosto deste aflito rapaz denotava extremo cansaço. Era como se fosse obrigado a fazer aquilo. Como se agisse daquela forma insana, involuntariamente. Um cacoete desesperador.

Uma sina.

Ou praga. Pois sua até então confortável vida virara do avesso no exato instante em que cruzara com aquela intrigante senhora... Esta sim, aterrorizante. E nunca mais a vira novamente. Passara a tomar diversos remédios, a maioria com tarjas pretas. Mas, sentia-se diferente.

Ele havia mudado.

Outro dia, no metrô, na volta para casa, teve os pensamentos interrompidos pela movimentação dentro do coletivo lotado que, ao parar em uma das estações, acolheu mais alguns viajantes. Dentre eles, uma moça, grávida, de aparência cansada.

Para quem, de imediato, fez questão de ceder seu lugar...


* * *

domingo, 26 de junho de 2011

O Sorriso da Lua

por Ricardo Gnecco Falco
Era mesmo como um fiapo branco.

Curvilíneo, ligando as duas pontas de um infinito negro. Um risco torto de claridade numa lousa insana e triste. Não havia estrelas, fixas ou cadentes. Só a antagonia visceral de um breu sobrecarregado pela luz.

O rosto astuto do céu mirando-me em brilho.

Senti a ameaça em cada poro da pele, arrepiada pela brisa noturna. O ressoar oculto de um deserto sábio e incerto, trazendo-me a única certeza comum aos viventes de toda a Humanidade.

Clara como a Lua.

O despertar de outrora estava lá fora agora, dormindo. Dentro da caixa de madeira repleta de flores restavam apenas os sonhos.

Já em processo de decomposição.

Encarei então, finalmente, o suave sorriso que me chamava; clamava... Sereno.

O gracejo da Lua.

Ri. De verdade. Do fundo de minhas vontades. Sorri com a própria alma, liberta de iniquidade. E, naquele exato instante, revivendo o momento instigante, lembrei-me da frase infante.

A Lua está parecendo um sorriso.

Dita no banco de trás do carro. Instantes antes... O assunto era outro, completamente diferente. Nada a ver. Nada a ver com a Lua. Com a beleza da Lua que só ele via.

E que espalhar queria.

Tudo a ver e ninguém via. Só ele. A frase pairou no interior do veículo como um risco sobre a imensidão mortal, padecendo de atenção. Um pequeno silêncio, reverberando-se antes do eterno calar.

Captada, é claro, primeiramente, por seu sensível radar.

Ecoou na mente de todos ali. Preencheu de silêncio a desconexa correria do dia a dia. Reverteu a agitação mental oriunda dos cosmopolitas estímulos para a transcendental meditação cósmica.

A Lua.

Tanta pressa para percorrer os caminhos e tanta animosidade ao chegar ao fim. Tanto tempo perdido em discursos, em vãs tentativas de firmar-se, para ao final só restar a inércia.

E a impossibilidade da despedida.

Quantas palavras, frases, gestos... Quando, ao cabo, é a silenciosa lembrança dos momentos singelos a ficar.

E o sorriso.

No luar.


* * *

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Castelo de Areia

por Ricardo Gnecco Falco


Dentre todas as coincidências, aquela era a mais comum.

Encontrar Luzia ali, em meio a tantas outras pessoas, não era assim tão inesperado. Era um dia de Sol, a praia estava lotada e ela sempre gostara de Sol e de praia. Conhecer o Rio de Janeiro sempre estivera em seus planos e, nesta época do ano, certamente aproveitava as férias para realizar tão antigo desejo.

Mais este desejo.

Reconhecera Luzia em meio às meninas que formavam uma roda na areia. Era a mais branca do grupo; mais até do que a areia. O contraste da pele com as longas e negras mechas de seu cabelo lhe dava um destaque todo especial. Um brilho.

Luzia era especial.

Sentou-se ao lado dela, como se ali fosse o destino de todos os passos que já dera na vida. Permaneceram calados; ambos. O vento movia lentamente as poucas nuvens no azulado céu e acariciava de modo intrínseco os pensamentos perdidos ali.

Lembrou-se da primeira vez que a vira nua. Inquietante miragem em meio ao devaneio etílico. O andar de cima da casa vazio, cada vez mais e mais distante da festa. O batuque eletrônico em sua exata ruptura ao fechar da porta. O verde mar convidativo daquele inesquecível olhar.

A ilha que trazia o horizonte para perto da praia.

Um vendedor de sorvetes tentava atrair a atenção do grupo com seus urros de praxe. Ver Luzia novamente lhe fazia delirar. Sentado ao lado dela, então, difícil acreditar... Queria poder gritar. Congelar aquele instante.

Derreter aquele gelo gigante.

Relembrar os momentos vividos; os incontáveis sorrisos perdidos. Refazer uma trajetória retórica, ensandecida. Retorcer o aço dos traços contidos no peito. Sonhar a respeito. Perder por direito o acesso ao descaso. Reter o fio da navalha que lhe inflamava a alma e ardia. Voltar para casa no rastro da espuma das ondas, tardias. Sua fortaleza...

Castelo de areia.

Ela, sereia, irretocável. Ele, ser ele, irrevogável. Em busca de perguntas, não respostas. Ter nas mangas as cartas dela. Reviver a vívida vida não vivida junto dela. Deter nas mãos os nãos dela. Ser forte o suficiente para ela. Por ela.

Às vezes sentir saudades, outras vontades.

Algumas meninas se levantaram, indo na direção do mar. Entre elas, Luzia.  Das poucas que ficaram, apenas duas lhe fitaram. Quem era e o que fazia ali, perguntaram. Não sabiam da história de Luzia; não a viam. Nada havia.

Não sabiam de nada...



*  *  *



domingo, 10 de abril de 2011

APREÇO

por Ricardo Gnecco Falco


O cargo era o mais difícil de definir.


Falava a empresa, o local de trabalho, tamanho da sala, benefícios... Mas, quando revelava o valor do salário, era inevitável a pergunta sobre o emprego. Afinal, por mais famosa, gigantesca e importante que fosse a corporação na qual trabalhava, ninguém poderia receber uma soma como a que ele dizia ganhar por mês.

E olha que ainda mentia para menos; bem menos...

Contudo, recebendo um valor tão vistoso e superior aos maiores ordenados de cargo público de seu país, como os de juízes do Supremo, desembargadores; a remuneração do próprio presidente da República... Era mesmo impossível não causar tamanha surpresa.

E nem revelava o salário, mesmo a menor, para qualquer um. Somente alguns poucos familiares e amigos mais próximos. Nem sua esposa conhecia a quantia correta, embora não precisasse se preocupar com isso, pois como era de se esperar, não lhe faltava nenhum bem, qualquer bem, que quisesse ter. E nunca na vida pensara que um dia, qualquer dia, fosse usufruir de tanta fartura.

Mas, nem tudo tinha preço.

Este era o caso do trabalho dele. Simplesmente, não tinha preço. Fazia-o porquê gostava e porque ninguém mais no país inteiro, ou qualquer outro país, o exercia tão bem quanto ele. Era algo como um dom, uma dádiva recebida sabe-se lá de onde ou de quem. Um poder que somente ele, e ninguém mais, possuía.

Ele era único.

Trabalhava com publicidade. Mas, não era publicitário. Na verdade, nunca sequer produziu qualquer peça publicitária. Nenhuma campanha, nenhum anúncio... Nada. Mas trabalhava, diariamente, com propaganda(s). Todas. Via de regra, com as mais caras e melhor produzidas. Tinha contato direto com os melhores profissionais da área. Conhecia e era reconhecido à distância pelos mais renomados marqueteiros do planeta.

Na verdade, era disputado a tapa por todos eles.

Transformou-se, em muito pouco tempo, em um mito. Já tinha gente que até desconfiava de sua existência. Mas ele existia; estava lá. Trabalhava naquela megaempresa de televisão que parecia mesmo tentar desviar todo e qualquer alarde sobre a sua pessoa e, principalmente, sobre a função que ele desempenhava ali.

Virou objeto de estudo e havia até uma equipe contratada para, simplesmente, acompanha-lo no dia a dia, com a secreta função de analisar seu trabalho; tentar entender as escolhas e decisões que tomava.

Era, definitivamente, um mestre.

Tinha curso superior, é claro, mas em outra área, completamente diferente da que ocupava ali. Tornara-se a maior referência da atualidade no ramo, sem sequer ter feito um único curso com aquela especificação.

Era formado em música.

Música clássica. Tocava peças musicais dificílimas já aos sete anos de idade, debruçado sobre o piano velho da tia-avó, herança de família. Um piano que nenhum ente querido queria guardar. Um elefante branco no meio da sala e que ninguém gostava, ou se interessava. Somente ele.

Apreço.

Então, aos vinte e três, a ruptura de seus maiores sonhos... Um acidente de carro no carnaval o obrigara a uma dolorosa estadia no CTI de um hospital. Vários meses. Vários ossos quebrados, principalmente nas mãos e braços. E vários membros da família a menos. O sonho de ser músico levado juntamente do pai, mãe e irmãos naquele fatídico cruzamento.

Recomeçou do zero. Reaprendeu a andar, falar, pegar... Até a sorrir novamente, com a chegada de Mariana em sua vida, pouco tempo depois; ao lado de quem estaria no altar, maternidade e ao final de cada novo e belo dia de vida.

Só não deu mesmo para voltar a tocar.

Mas, como diz o ditado, quando uma janela se fecha, portas se abrem. E Paulo nem percebeu ao entrar no mundo que hoje tão bem lhe faz. E que tão bem o faz, também. Começou meio sem querer, ao sugerir a um amigo, que trabalhava em uma agência, que alterasse a ordem de exibição de um anúncio, veiculado na televisão.

Tal anúncio aparecia sempre após outro, que terminava de uma forma que o incomodava, pois não só apagava a ideia da primeira propaganda, que deveria ficar na cabeça do público, como também revertia a mesma, afastando o consumidor do produto, ao invés de aproximar.

Tudo por causa de uma simples questão de arranjo.

“O compasso está errado”, dizia ao amigo, que se interessou pela sugestão e, ao atentar-se para as demais colocações recebidas, vislumbrou algo ali que até então jamais enxergara. Nem ele, e nem ninguém que conhecia. Era uma ideia totalmente nova, um novo conceito. Algo que, embora óbvio, seria inovador.

A quebra de um paradigma.

E assim foi contratado. Pela primeira vez na vida, entrou em uma agência de propaganda. Foi apresentado pelo amigo aos profissionais da área responsável pelo fechamento dos contratos com as mídias e, também pela primeira vez, um contrato foi firmado com algumas poucas e até então estranhas cláusulas a mais. E que mudariam por completo não apenas sua vida...

Mas também todo o modus operandi da publicidade contemporânea.

A agência do amigo tornou-se pequena e os convites de trabalho começaram a chover de diversos segmentos do mercado. Empresas privadas, grandes organizações corporativas, indústrias, conglomerados multinacionais, redes de comunicação...

Até chegar ao cargo e empresa atuais.

Ele orquestrava, de modo espontâneo, natural e subliminar, a ordem dos anúncios pagos pelas patrocinadoras para irem ao ar. Rarefeito naquela emissora, diga-se de passagem. Cortava alguns, repetia outros, misturava partes, sons... Silenciava imagens. Floreava tons, semitons. Fazia arte sobre a arte com total liberdade e domínio.

Incomparável.

Montava um caminho na apresentação ao público das peças que, ao final do intervalo, juntamente de sua massiva exposição, deslumbravam cada vez mais e mais consumidores e, consequentemente, anunciantes.

Estupefatos.

Conforme constatado por especialistas, as mesmas peças publicitárias, em outros canais e redes televisivas, não surtiam o mesmo efeito, o mesmo impacto nos sentimentos do público, que causavam ao serem apresentadas, após seu arranjo, na emissora onde trabalhava.

Era, realmente, um dom.

Sua função, oficializada na tabela de cargos e salários da empresa, para estranhamento de todos os que tinham acesso às informações sigilosas da corporação ou aos holerites, estava assim definida:

Maestro.

* * *
 


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Obra da Destino



por Ricardo Gnecco Falco, free lancer


O respeitado Sr. Amor de Facto Albuquerque e sua esposa, dona Felicidade Plehn Albuquerque, grávida de seis meses, foram vítimas de um sangrento acidente nesta madrugada na avenida Destino, altura do Insensatez Shopping Center.

Os bombeiros (quartel Samaritano) afirmaram que são comuns chamados para socorrerem vítimas de acidentes naquela área. Testemunhas da tragédia disseram que tudo aconteceu muito rápido, devido a uma obra na pista, mal sinalizada. O veículo, um importado preto (placa R&V 1994), que vinha correndo muito, bateu em um trator de fabricação árabe, da companhia Fathá Lidhad e capotou.

O casal, gravemente ferido, foi levado para o Hospital da Esperança, em Santa Fé. Amor não resistiu aos ferimentos e teve uma parada cardíaca, ainda na ambulância. Ao chegar ao hospital, Felicidade entrou em trabalho de parto e deu à luz uma menina.

O bebê prematuro foi levado imediatamente para a UTI e tornou-se órfão aos dez minutos de vida.

Lembrança, irmã de Felicidade e agora responsável pela criança, chegou ao hospital pela manhã e entrou em estado de choque ao ser notificada dos óbitos pelo doutor Tempo de Castro, que terminava seu plantão.

Às sete horas da manhã, à base de fortes calmantes, Lembrança subiu até a Unidade de Tratamento Intensivo do Esperança e foi informada de que o bebê não corria mais risco de morte. Às nove horas, ainda muito abalada, disse que iria manter o nome planejado para a criança, em homenagem à irmã.

Saudade, que por apenas alguns instantes conheceu Felicidade, é a cara do Amor e será batizada no próprio hospital, assim que sair da incubadora.



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O Regresso

por Ricardo G. Falco.



Quando a página finalmente desprendeu-se da lombada do livro já tinham se passado trinta e cinco anos. Trinta e cinco anos de uma luta que, agora, realmente comprovava-se em vão. A lei da Física vencera. A gravidade, por último, mostrara-se mais forte.

Mas foram anos também de intenso aprendizado; de imensa aceitação e — Por que não? — de indiscutível regozijo.

Voando pela imensidão daqueles intermináveis segundos, num inigualável sentimento de liberdade e missão, a amarelada folha pousara exatamente à frente de João. E, do infinito inatingível contido naquela esquecida página, pôde então a envelhecida tinta chamar-lhe a atenção.

Era a data de seu aniversário. Doze de setembro de mil novecentos e setenta e cinco. O exato dia, mês e ano de seu nascimento. E, pela primeira vez em toda a sua vida, João teve a certeza da hora exata de seu natalício: dez e dezessete da manhã. Não poderia ser diferente.

O tiro fora perfeito.

Seria uma excepcional chance; uma extraordinária ocasião. Um momento insólito; único. Nem ontem, nem amanhã e nem em nenhum outro instante o impacto daquela coincidência surtiria o efeito desesperadamente — foram trinta e cinco anos! — desejado.

Aquela folha continha a senha mágica que viria a se tornar o tão esperado ingresso para a viagem de volta à origem. De ambos: livro e homem.

Regresso.

Ao encontrar a esquecida publicação de onde a velha folha desprendera-se, lá do alto da estante, João finalmente compreendeu a lição.

Preso a fotografias, cartas, selos e memórias impróprias, chegava ao final de um longo e revolto ciclo. Órfão após poucos minutos de seu nascimento, João passara a vida inteira culpando-se pela morte da mãe, cuja falta sentia em cada segundo de sua triste e vazia existência.

Mas aquele livro; aquele velho e empoeirado livro, trazia muito mais do que a exata data de seu nascimento estampada na forma de um carimbo. Aquele livro trazia-lhe a paz. A cura.

A liberdade.

Ninguém entenderia a origem do belo e intenso sorriso no rosto do rapaz, diante do balcão de entrega, pouco tempo depois. A nova gerente da biblioteca preocupava-se mais em chegar ao valor aproximado da dívida a ser paga. Um verdadeiro absurdo! Do tamanho do descaso que aquele antigo carimbo delatava...

Ligou para a diretora da instituição que, de imediato, desceu até o térreo para averiguar a veracidade do inusitado fato. Uma senhora já idosa, mas de aparência dócil e sábia, adquirida ao longo de décadas e décadas de vida. Boa parte destas, por sinal, dedicadas ao serviço naquela biblioteca, sua verdadeira paixão.

E, nestes anos todos, não se lembrava de ter visto algum caso sequer parecido com aquele. Na verdade, já não se recordava de muitas coisas... Mas, engraçado, ao olhar para o enorme e brilhante sorriso no rosto daquele rapaz, podia jurar que já o tinha visto antes, na face de uma bela e radiante jovem, que entrara em trabalho de parto bem ali, na frente daquele balcão.

Trinta e cinco anos atrás.



* * *

segunda-feira, 31 de maio de 2010

REDE DE CONTOS






Projeto Piloto – 1ª antologia de contos reunindo textos de diferentes autores, todos membros da famosa comunidade literária do Orkut, a N.E.B. – Novos Escritores do Brasil


Com quase 10.000 membros, este verdadeiro “celeiro literário” reúne jovens autores, de diversas partes do Brasil e do mundo, que se “encontraram”, unidos pela mesma paixão, numa atmosfera de ajuda mútua, para a mostra de textos, trabalhos, troca de experiências, impressões, dicas, críticas e discussões sobre literatura em geral.


Na N.E.B., são promovidos concursos literários internos e também produções que já ultrapassaram a barreira do virtual, como a publicação de uma revista literária com distribuição em todo o território nacional (“O Verbo”) e o presente Projeto Piloto, intitulado REDE DE CONTOS, a primeira antologia de contos reunindo alguns dos melhores trabalhos postados na comunidade, escolhidos entre os próprios autores.


Seguem as fotos "fresquinhas" do primeiro lote do livro, recebido semana passada: 

  


* * *

sábado, 20 de março de 2010

"Valeu, Tio!"

por Ricardo Gnecco Falco

Entrou no ônibus após uma pequena corrida.


Não queria perder a oportunidade que o sinal de trânsito fechado lhe oferecia. Já na roleta, percebeu o missionário que, na forma de vendedor de cocadas, bradava como de costume sua história de conversão aos passageiros.


Em meio ao testemunho proclamado no interior daquele coletivo, o recém-chegado passageiro caminhou pelo centro do longo veículo a conferir o troco recebido. Não vira o rosto da trocadora, nem do entusiasmado convertido, assim como o da maioria dos trabalhadores que, após mais um extenso dia, voltavam para suas casas através daquele popular meio de transporte.


Não havia bancos vagos totalmente, apenas um lugar aqui, outro ali, sempre ao lado de algum outro alguém sem rosto e que, para seu desgosto, não muito espaço ofereciam para ele e sua enorme sacola de doces.


Sim. Da mesma forma que o vendedor de cocadas, também ele, o recém-chegado passageiro, carregava guloseimas. Não portava uma cesta, como o prolixo missionário, mas segurava as alças de uma vultosa bolsa plástica, repleta de chocolates, balas, bombons e outras iguarias.


Estas não eram para vender, ao custo da solidariedade alheia, em prol dos irmãos atendidos pela casa onde e ex-dependente químico declarava trabalhar; mas sim para o seu próprio consumo.


No centro da cidade existia uma enorme casa de doces, que vendia em médias quantidades a preço de atacado. O recém-chegado passageiro abastecera-se lá. Sua cota mensal de glicose. Era início de mês e, com o salário recebido no bolso, dera início ao costumeiro estoque.


Sentou-se ao final do coletivo; no penúltimo banco, pois visualizara um espaço no fundo do ônibus onde descobrira não haver ninguém ao lado, possibilitando-o assim começar a saborosa degustação. Mas, ao aproximar-se, percebera o motivo daquele inusitado vazio, a ele oferecido em plena hora do rush.


Havia um menino de rua deitado sobre o último assento, ocupando o lugar destinado originalmente para duas ou três pessoas.


Descalço, maltrapilho e sujo, o dimenor também portava um saco plástico, só que o detinha na altura da boca, pressionado em sua abertura por um par de mãos trêmulas, ainda sob efeito do alucinógeno vapor.


O rosto daquela criança em êxtase, retrato cruel da realidade urbana, foi a primeira e única feição avistada pelo homem dentro do coletivo. Torpor infantil. Contraste.


Asco.


Então, após entreabrir somente um dos olhos, o menino foi diretamente atraído pela transparência da sacola plástica carregada pelo recém-chegado passageiro; o único a sentar-se próximo a ele.


Levantou-se com dificuldade e, no resto de inocência que a brutalidade desumana daquela grande cidade ainda lhe permitia experimentar, estendeu os braços na direção da sacola, numa mistura de sonho e realidade.


“Valeu, tio!”, disse o moleque com o esboço de um tenro sorriso nos lábios marcados de cola.


“Valeu, tio!”


Mais ainda do que o sorriso, ficou marcada na mente do recém-chegado passageiro aquela frase. Alegre. Aliviada. Feliz. Uma simples e pequenina frase. Uma meia sentença. Muito mais rica em sua exclamação. Uma pequena pausa em meio a uma meia vida.


Sem sua sacola de doces, o passageiro agora não mais era um recém-chegado. Estabelecera contato direto com a plenitude de sentido coletivo. E único. Desfizera-se de sua máscara, seu muro, sua redoma de vidro temperado.


Temperança.


Tocado pelas mãos daquela criança, sujas pelo mesmo cimento do intransponível muro agora derrubado, o passageiro já havia feito o verdadeiro percurso. O caminho precursor de todos os trajetos.


Concretos acessos.


Pela janela avistava o invisível. Marquises, pontes, viadutos... A cidade estava toda lá fora. Viva. Reflexos convexos de encontro a um complexo coletivo. Cidade. A rima na mente, incoerente, querendo conversa. E se tudo tivesse sido diferente para ele? E se, nessa idade... E se?


Cidade.


O doce sentido das palavras, degustado em forma de poesia. O abrupto encontro de realidades perdidas. Perdidas em meio a um insustentável sentido. Idas e vindas. A pressa. O medo. O egoísmo e a falsa sensação de impotência. Desculpas de culpas cabíveis. Reflexa ação do pensar coletivamente. Ônus.


Ônibus.


O resto do percurso foi feito em silêncio. Tudo diferente do normal. O vendedor de cocadas desceu; alguns outros passageiros desceram. O coletivo flutuando sobre as trilhas perdidas de uma tarde em despedida. Só havia aquele rosto agora. E aquela frase...


“Valeu, tio!”


E aquele sorriso infantil.


* * *

quarta-feira, 3 de março de 2010

TUDO AQUILO *

por Ricardo Gnecco Falco

– Eu hoje me dei conta de que não consigo mais chorar.
As cartas, certamente surpresas, não mais podem me encarar;
não entorto mais suas linhas, devagar;
nem rego seus pontos, com pesar;
sequer desfaço suas dobras; nem pensar.


Eu hoje percebi que naquela única fotografia
só você aparecia.
Nada mais acontecia.
Só você me entorpecia.
Só você me escondia.


Eu hoje pude ver o que também se esconde por trás
de toda essa lembrança que agora se refaz.
Perdi de vez, finalmente, o que sempre achei fugaz
e de uma hora para outra descobri a paz.
É incrível como uma ilusão derradeira se desfaz...


Eu hoje pude ver que tudo aquilo que era meu,
só era meu porque eu era seu.
E no distante erro que um de nós não cometeu
pude sentir como sentiu Romeu
aquela perda em que se converteu.


...
* escrito em 09/11/1996

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A Conquista

por Ricardo Gnecco Falco

Era engraçado...

Uma pista de dança repleta de gente, numa afamada casa noturna carioca, e ele ali, olhando para cima, para os lados... De vez em quando fixava o olhar em algum ponto da parede; nas geringonças do teto; em algum holofote...

Sei lá onde.

E também não sei se todo mundo reparava nisso. Nisso e em todas as outras coisas que envolviam esse cara. Na verdade, acho que era ele quem me envolvia; ele que me atraía com essa aura de mistério dele. Parecia estar sempre além...

Ele era assim e ponto.

Numa noite dessas, ele simplesmente fechou os olhos e dançou... Dançou por quase meia hora sem abrir os olhos. Nem uma única vez. Tenho certeza disso, pois estava bem na frente dele. Eu já estava naquele estágio de “tenho que descobrir o que é que esse cara tem...”, entende?

Eu tinha que saber por que ele era tão diferente. Por que ele chamava tanto a minha atenção? O que ele ligava em mim, que me deixava totalmente ligada nele...

Era estranho.

O cara podia reparar no parafuso à mostra de uma caixa de som, num canto qualquer da pista, e ficar absorvendo o fato como um colecionador a degustar um vinho, mas era incapaz de perceber que a pessoa em frente ─ bem na frente! ─, não tirava os olhos dele.

Chegava, conversava com os conhecidos, brincava; ria com as amigas ─ como eu as odiava! ─, dançava; esbaldava-se na pista. E eu ali, seguindo-o pela boate toda. Depois ele simplesmente ia embora. Este era outro ponto. Sempre ia embora antes do fim. Tinha disso, também...

Ele nunca ficava até o final.

Esta era outra característica deste ser. Outra particularidade desse verdadeiro emblema que apareceu certa noite na minha vida e que nunca mais me deixou em paz, forçando-me a procurar descobrir tudo que podia sobre ele.

Não que ele fosse um deus grego. Na verdade estava longe disso. Mas, como já disse, ele era diferente. Tinha alguma coisa nele... Alguma coisa especial. Algo que o tornava único.

Alguma coisa que me fez fazer tudo o que fiz.

Eu não ia mais para as outras pistas; passava a noite inteira na que ele gostava de ficar. Sabia os dias que ele costumava aparecer por lá e também os que ele jamais apareceria...

Já sabia quais eram as bandas prediletas dele; os DJ’s que ele mais gostava; os tipos de garotas que chamavam a atenção dele... As festas que ele freqüentava; os malucos que ele conhecia; as camisas que ele mais usava; o carro dele...

Orkut, Fotolog, Myspace, Facebook...

Cada dia era uma descoberta nova; uma outra prova. Um novo e excitante desafio. Eu não me interessava por mais nada. Nada nem ninguém que não tivesse algum tipo de ligação com ele.

E, de certa forma, comecei a cuidar um pouco mais de mim, também. Parei de fumar, pois ele detestava fumaça de cigarro; bebida alcoólica então... Portanto, mantinha-me também sóbria durante toda a noite. Enfim... Descobria e vivenciava as maravilhas escondidas na difícil tarefa de se investigar ─ a fundo! ─ alguém.

Alguém como ele, é claro...

Alguém com o poder de ditar mudanças em meu comportamento que iam além de quando estava em sua presença. Ele influenciava também as minhas escolhas do dia-a-dia.

Eu ainda nem sabia, mas já tinha começado a minha mutação...

Tanto é que, depois de alguns meses, eu fui reparar que não havia ficado com ninguém. Ninguém, mesmo! Quer dizer, eu nem me toquei disso, né... Minhas amigas é que repararam. Logo eu... E confesso que fiquei surpresa ao me dar conta da realidade.

Estava realmente diferente.

Tinha uma amiga minha, a mais doidinha de todas, que não tardou em juntar os fatos. Sabia que eu estava interessada por alguém. Veio com o papo de que eu andava estranha; que estava preocupada comigo... Disse que eu podia contar com ela para o que precisasse. Mas o fato é que eu estava mesmo diferente. Eu agia diferente. Eu via as coisas de forma diferente e, mais cedo ou mais tarde, o motivo disso tudo viria à tona de vez...

Cedo ou tarde, meu segredo seria revelado.

E, como se já não bastasse a situação na qual eu estava, a fulana ainda resolveu me pedir ajuda para chegar num cara que ela estava de olho já há algum tempo. Não preciso nem falar quem era, né...?

O próprio.

Entretanto, foi engraçado no início... Eu vi ali uma situação onde eu poderia, finalmente, resolver um impasse que se estendia muito além de minha compreensão... Parecia inacreditável, mas eu ainda não havia trocado sequer uma simples palavra com ele.

Nem uminha...

E eu tinha certeza que ele não se interessaria por ela, pois já me considerava conhecedora dos gostos dele também. Afinal, eram meses de vigilância intensa... Seria a tão esperada chance de me comunicar com ele. E, nada melhor do que tentar apresentar-lhe uma amiga. Uma pessoa nada a ver... Seria perfeito! Eu ainda sairia por cima.

Mas...

Sim. Eles ficaram. Ficaram já ali, na primeira vez. E eu nem precisei entrar na jogada. A fulaninha foi direta. Rápida e certeira. Não me deu nem tempo de absorver o acontecimento.

O inusitado episódio.

Os dois ali, no sofá do segundo andar, se beijando como se tivessem sede. Muita sede. A ficha não caiu, sabe...? Só mais tarde. E então desabei. Não entendia o porquê daquilo; porque eles haviam ficado... A depressão rolando solta. Consumindo meu sono, minhas vontades... Parei com tudo.

Inclusive com o que havia parado.

Fumava que nem uma louca; comia como uma vaca e me vestia da pior forma possível. Achei-me a pior das criaturas. O ser humano mais rejeitado dentre todos os viventes; e até em morte confesso que pensei.

Parece bobeira; exagero... Mas pensei mesmo em desistir de tudo. Não sei nem como foi que não fiz coisa pior, mas tudo que fazia era visando a minha própria destruição.

Queria desintegrar, sumir, desaparecer da face da terra.

Enfim... Na minha angustiada mente, eu já fantasiava até o casamento deles. Os dois tinham se dado tão bem... E eu sabia que ela estava fazendo tudo aquilo só para me atingir.

E me acertou mesmo em cheio.

Até que numa noite ─ após várias semanas de sofrido isolamento ─, resolvi testemunhar de longe a alegria daquele casal ridículo que não parava de se agarrar no meio da pista. Comecei a beber e a beber mais e mais... Passei tanto da conta que a última coisa que lembro ter feito foi tão vergonhosa que nem tenho coragem de contar... E isso sem falar das coisas que eu fiz e não tenho a mínima lembrança.

Se valeu a pena?

Não sei... Mas faria tudo de novo. Na verdade, quase tudo. Pois, se tivesse escolha; se pudesse realmente decidir entre o que sentir e o que não sentir... Se tivesse algum mísero controle sobre o meu coração...

Eu jamais teria me apaixonado por ele.

Todavia... De tudo o que fiz; tudo o que fiquei sabendo depois sobre aquela fatídica noite... A bebedeira, o escândalo, o mico... Tudo o que aconteceu... O mais importante, o mais marcante... O mais terrível e ao mesmo tempo o mais maravilhoso de tudo...

Foi que eu saí de lá nos braços dele.


* * *