quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O Mercado Editorial hoje - Uma enorme bolha, prestes a estourar!


Dando continuidade ao post de ontem, sobre as aulas que estou tendo o prazer de assistir, aqui na Estação das Letras, no Flamengo, hoje foi a vez de conhecer Júlio Silveira, dono da Ímã Editorial e o responsável pela parte "digital" da ementa deste curso; uma enorme (e confusa) trilha que se estende diante (atrás, acima, abaixo...) do escritor que deseja entrar (logar?, plugar? ... ???) no atual Mercado Editorial (em nível mundial).
Foi uma verdadeira aula dinâmica, abrangendo desde os tempos medievais (como em "O Nome da Rosa"), passando pela Revolução Industrial e chegando até os dias atuais, numa Pós-Modernidade muito provavelmente já Pré-Revolucionária novamente... (!!!)
Como não poderia deixar de ser, o editor (e também contista! - eu não sabia!) já iniciou sua aula nos deliciando com uma apresentação gráfica, contendo todo este passeio histórico acima descrito, sempre enfatizando a tríade ESCRITOR - VEÍCULO/PROCESSOS - LEITOR, em cada uma destas "Eras". 
O mais interessante foi poder constatar que toda aquela história aprendida na faculdade (e lá se vão 15 anos, como estou velho!) de Comunicação Social (Jornalismo) sobre EMISSOR - RUÍDO - RECEPTOR pode ser perfeitamente encaixada com a tríade apresentada pelo Júlio hoje... E digo mais, nunca a palavra "RUÍDO" fez tanto sentido como nos tempos atuais, restringindo o quesito MENSAGEM (Emissor X Receptor) ao mundo do livro, apenas (o Mercado Editorial).

"Vivemos uma enorme bolha, prestes a estourar! E o que é pior... Não temos a menor noção de onde tudo isso vai parar (ou continuar)".

O fato é que não se sabe bem quando ou como (no sentido de para onde, ou até onde irá). Mas o Mercado Editorial, da forma que o conhecemos hoje, cedo ou "menos cedo", irá acabar. E o mais legal é que nada disto possui um sentido tenebroso, nem aquele tom Nostradamus apocalíptico catastrófico. Nem para o escritor e tampouco para os editores e editoras. Pelo menos não para os que não se trancarem em seus castelos (editores E/OU escritores).
A própria figura do leitor está em transmutação. Mudando gradualmente da mesma forma que os demais (escritores/editores/veículos). Foi interessante a reflexão feita em sala sobre o início da Era da TV, quando a mesma nada mais era do que um rádio com imagens, ligadas enquanto as donas de casa passavam suas roupas, num canto, apenas ouvindo as notícias. A programação, os formatos dos programas e tal... Tudo levou um tempo para deixar de ter aquela "cara" de rádio, até que as pessoas se acostumassem com as imagens e as possibilidades que aquele novo veículo trazia. Não seria hoje o mesmo que acontece com o (des)necessário "efeito de virar de página" dos e-readers e suas estantes virtuais "de madeira"? (rs!) Estamos, pois, nesta mesmíssima fase de transição... Real X Virtual. Nos acostumando...
E então nos foi dado, como "boa notícia", as inúmeras novas ferramentas disponibilizadas virtualmente. Verdadeiras pontes que aproximam cada vez mais o escritor de seus leitores. A facilidade da autopublicação, impressão por demanda, o ganancioso "convite" das Gigantes (Amazon e cia.)... Tudo isso colocando o seu texto, a sua mensagem, já embaladinha, formatadinha e arrumadinha, no exato nicho a qual a mesma pertença.
Como...?
Através das redes sociais, amigos... Ah, essas benditas redes sociais... Não se sabe para onde tudo isso vai, mas tudo isso está passando, neste exato momento, por estas benditas redes sociais... 

Inclusive, a própria forma de se contar uma história.

"Só" fui descobrir hoje (reparem como o "só" está entre aspas, caso você também venha a descobrir "só" agora, lendo aqui o que irei escrever) que o livro de maior sucesso do Universo em vendas, o famoso "50 Tons de Cinza", só existe por causa daquela - também famosa - saga vampiresca (Crepúsculo). 
"Só" hoje fui saber que a escritora deste campeão erótico de vendas
para moças de família só existe também porque existem as redes sociais. 
E "só" fui saber hoje também que o tal best seller nada mais é do que a própria Saga Crepúsculo.

Sim, isso mesmo... Só que numa versão, digamos... Mais hardcore.

"Só" hoje (meu Deus, como estou atrasado!!!) descobri que a autora da Saga Crepúsculo, por ser religiosa (Mórmon), não podia/pôde/quis escrever as - tão entaladas na garganta de seus leitores! - cenas de sexo entre a Bella e suas duas feras. Por isso a tal Saga é tão repleta desta tensão sexual, reprimida pelo menos até o casamento das personagens principais.

"Só" hoje (nããããããããão!!!) fui saber que, indignados, os leitores da Saga Assexuada, pelo mundo todo, se uniram - através destas benditas redes sociais - e começaram a dar seus "pitacos" aqui e acolá. 
Começaram a discutir sobre isto. 
Começaram a ESCREVER sobre isto... 
Escreveram, inclusive, as cenas que a própria autora do livro não podia/pôde/quis escrever!
Isso mesmo, seus atrasados... Caso vocês não saibam, foi um tal de vampiro sugando muito mais do que sangue, adolescente virgem sodomizando lobisomem, lobisomem mordendo vampiro... Uma loucura!!!
E eu NÃO soube dessa festança (crescente!) que acontecia nas benditas redes sociais! 

"Só" hoje é que fui descobrir que, dentre estes sacaninhas grupos de indignados leitores(as) de Crepúsculo, despontou a tal  autora do 50 Tons de Cinza que, também sob os "pitacos" de seus sacanas coleguinhas de grupo, a encorajaram a fazer um (ôpa!) troca-troca naquelas aguadas personagens da Saga. 
 E, assim, conforme "só" hoje fui saber, surgiu o 50 Tons de Cinza, que eu não li mais que, se você reparar bem, tem um CEO (bem) esquisitão de uma multinacional no lugar de um (hmm...) vampiro. Tem uma "inocente donzela" no lugar de Bella. E por aí vai...

Ou seja...

A autora pegou a propaganda da Sandy vendendo Toddynho e transformou na Alinne Moraes vendendo Devassa.

Tudo isso para dizer, leitor, que nesta enorme bolha prestes a explodir, está contido também o ESCRITOR, no formato tradicional que conhecemos e, consequentemente, a própria ESCRITURA(ato de escrever) dos livros do futuro.
Por que o livro só pode contar uma história? Por que não contar uma versão diferente para CADA NICHO de seu público? Por que o Edward não pode se chamar Christian? Ou ainda, porque o próprio leitor não pode mudar aquela parte; tirar esta; acrescentar uma outra; misturar com o que ele quiser/fizer/tiver?
E, por último...

Por que eu "só" fui saber de tudo isso HOJE!?!



;)

Abrax,

Paz e Bem!

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

"Uma Editora não é uma ONG"!



Assisti hoje a primeira das 3 aulas do curso acima (recomendadíssimo para quem mora no Rio), hoje especificamente sobre o funcionamento da engrenagem de uma editora "de verdade" (considerada ativa, ou seja, com vendagem mínima acima de 5.000 exemplares anuais) e, dentre várias histórias e cases comentados, o que mais me marcou foi uma frase dita pela dona da novíssima Foz Editora, Isa Pessoa... Nada de mais; até obvia. Mas que me fez repensar certos (pre)conceitos de escritor que eu tinha, principalmente por vir de uma profissional notadamente apaixonada pelo que faz e, sobretudo, que tem pelo produto Livro o mesmo apreço, respeito, lealdade (quase veneração) que um autor tem por sua obra:

"Uma editora não é uma ONG"

Foi muito interessante (re)conhecer a mesma relação de amor "de pai(mãe) para filho" com o produto livro, que o escritor possui com sua cria.
Algo assim do tipo... O autor seria o "pai de primeira viagem", tendo seu primeiro filho, babão, inocente, perdido; enquanto o editor seria o "dono da creche". (rs!)
Inclusive, nas dicas dadas por ela na parte de como enviar originais para as editoras, achei muito interessante e finalmente entendi porque não se deve enviar a "obra fechada", ou mesmo capas e demais elementos que ultrapassem a essência das obras a serem analisadas... Pois o verdadeiro editor gosta, e quer!, participar também do processo criativo daquele "rebento". Quer opinar, sugerir uma troca aqui, um acréscimo acolá; mesmo em novas obras de escritores renomados!

Sim, autores de plantão... O editor também se vê (quando decide apostar/escolher uma obra) como "autor" daquele futuro livro que você, escritor babão, sempre considerou só seu... (rs!) Afinal de contas, quem vai "bancar" as fraldas todas, listinha de materiais do colégio, remédios, passeios, faculdade, intercâmbio... Quem irá "preparar para o mundo" o seu embrião, será ele/ela! 

Enfim... Estou gostando muito de participar destas aulas!
Espero poder trazer mais um pouquinho do que estarei observando nesta semana sobre o Mercado Editorial para vocês!

Amanhã (hoje!) será a vez dos e-books! Aguardem... 
;)

Forte abraço,
Paz e Bem!

domingo, 30 de dezembro de 2012

Contagem Regressiva!


 Clique!

Natal, Natal, Natal...

Para quem não teve a chance de encontrar um Papai Noel neste Natal que já passou (tudo voa nesta época!), segue abaixo uma montagem postada lá na Fan Page do livro, no Facebook (www.facebook.com/subterbook). 




Ainda em tempo, um "SUBTERNATAL" para todos por aqui e um Ano-Novo repleto de Realizações!

Forte abraço,

Paz e Bem!




sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Um E-book "de carne e osso" !


  A tecnologia dos tempos modernos muitas vezes nos serve não apenas para possibilitar saltos enormes entre o velho e o novo, mas também para amenizar/suavizar o natural estranhamento frente as distancias tão incrivelmente percorridas.

   Muitas vezes, precisamos embalar estas "novidades" com envólucros que nos remetam ao conhecido (e seguro) terreno do início deste salto, de onde partiu o impulso para os nossos pés alcançarem o anteriormente inatingível.

   Na fase de transição entre o velho e o novo, é preciso "re" inovar, progredir regressando ("pró"gresso); dando forma ao etéreo, realidade à imaginação, concretude ao virtual.

   Embalar um "novo" (no que diz respeito a tecnologia utilizada) livro, por exemplo, pode se transformar em uma experiência única; um paradigma paradoxal.

 Como presentear, fisicamente / presencialmente, uma pessoa querida com um "link", um arquivo virtual...? Como dar um recém-publicado livro, eletrônico (e-book), para alguém "em mãos"...?

   Passei por isso, recentemente, com meu mais novo rebento... 

   Foi interessante criar algumas versões físicas de um produto virtual, remetendo à sua forma "clássica" de apresentação, mas sem perder o "brilho" da modernidade.

   Aproveito para compartilhar aqui o resultado desta verdadeira "experiência fósmea"... (rs!)

   Acabei gerando uma versão "pseudo-física" (eita!) de meu Romance, o e-book "SUBTERFÚGIO" (www.seulivropronto.com), criada para presentear pessoas queridas em minha vida e que ainda precisam "segurá-lo nas próprias mãos" para acreditarem em sua existência.

   O antigo conceito do "ver para crer"! (rs!)

  Nestes tempos difíceis para escritores e editores, "teclemos" com afinco: 

   "São Tomé, rogai por nós!"


:)




 Adquira já o seu!

Versão digital (e-book), compra direta na Amazon: http://a.co/7cUkdM4

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Degustação

Foi liberado recentemente o Primeiro Capítulo do romance SUBTERFÚGIO.



Em pleno período de lançamento, as primeiras informações sobre a obra foram disponibilizadas no site oficial e a venda do livro está sendo feita exclusivamente pela Amazon, através do link:  http://a.co/7cUkdM4




Também foi criada uma "subterpage" do livro na rede social Facebook, onde é possível encontrar um rico material sobre a 1ª edição da obra, incluindo álbuns de fotos e informações diversas à respeito da publicação.


        

 Não deixe de visitar e dar uma "curtida" na nova página!

Clique aqui!


domingo, 2 de setembro de 2012

Lançamento!

 Chegou SUBTERFÚGIO, Romance de Ricardo Gnecco Falco  -  Versão E-book.


  Um grupo de amigos reencontra-se em uma misteriosa festa, após um longo e incômodo período de separação.
    Os fatos vão sendo apresentados aos poucos, temporalmente diluídos em uma trama instigante, como um efeito de dominó, onde o ato de um personagem pode gerar uma longínqua lembrança ou mesmo apenas uma frase dita em determinado momento pode sugerir, ou quem sabe até mesmo explicar, tanto o futuro quanto o passado.
      Aliás, neste livro a única coisa incerta parece ser mesmo o presente.
    Mas como saber se determinado momento representa o futuro ou o passado? Qual será o presente? Onde tudo começa? Ou, principalmente... Onde tudo acaba, acabou, acabará?
     Uma intrigante história de amor; um efusivo Romance.
   Complexo, perplexo, convexo.
   Todas as passagens deste livro estão interligadas por uma quase invisível linha, que costura os anos e os acontecimentos de forma coloidal, dando margens a suposições e, em determinados momentos, até mesmo distanciando o leitor da trama principal para, sorrateiramente, propiciar aos próprios personagens um contato mais íntimo.
   Isto fará o leitor sentir-se como um simples remendo. Um mero pedaço de pano que servirá como álibi para a inacreditável agulha que certamente desafiará o mais corajoso leitor no costurar desta obra, espetando-o sempre que o mesmo teimar em decifrá-la, a cada virada de página.

                          




          Adquira já o seu E-book!

Arquivo em  .pdf  para visualização em
qualquer tipo de sistema ou plataforma.

E-readers, tablets, celulares...


    Leia quando quiser, onde você estiver!     



segunda-feira, 4 de junho de 2012

Antologia DESENCONTOS

Organizador: Ricardo Gnecco Falco 

A produção de um livro é algo extremamente complexo. Principalmente, quando a obra em questão trata-se de uma coletânea de contos, de temáticas diversas, de diferentes escritores/estilos. Uma antologia de contos sem nenhuma afinidade, nenhuma linha de conexão, nada em comum. Exceto... Exatamente isto.
Reunindo 13 (treze) contos ficcionais de 7 autores independentes, sem fins lucrativos e/ou comerciais, a antologia DESENCONTOS nasceu da união de diferentes forças.



Além dos autores, vários outros profissionais do livro participaram do processo da produção deste mimado rebento. 
Desde a criação e apresentação dos textos originais, avaliados então em uma reunião para escolha das obras que formariam o presente livro (conselho editorial), os escritos ainda passaram por algumas revisões textuais (coordenadas por uma equipe de revisores), depois pelo processo de diagramação (realizada pelo designer gráfico que vos escreve :-), até a finalização propriamente dita do produto livro (impressão do miolo, da capa, acabamentos, fechamento de arquivo - e-book - e remessa dos exemplares impressos).





Partindo da reflexão da importância da vivência de cada fase que compõe o desenvolvimento de um projeto de produção de um livro (físico e virtual), surgiu a presente obra. 
  
Da criação intelectual ao produto final, várias etapas foram cuidadosamente executadas por uma afinada e verdadeira equipe de Produção Editorial. 
  
O resultado foi esse aí abaixo, a antologia DESENCONTOS.













Link para a versão eletrônica da obra (e-book):



Boa leitura!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Delirium Tropicalis

por Ricardo Gnecco Falco



Avistara a mesa recém-liberada do outro lado do salão.

O restaurante estava lotado. O centro da cidade estava lotado. O metrô, pela manhã, lotado. As calçadas, já na hora do almoço, lotadas. A galeria, o elevador... Provavelmente, lembrou-se das pilhas de relatórios que lotavam sua sala em algum prédio próximo àquela rua, também lotada.

Correu.

Aquele seria possivelmente o único momento somente dele no dia e, driblando as bolsas dependuradas nas costas das cadeiras, percorreu com desenvoltura o labirinto formado entre as mesas lotadas de clientes famintos. Gente como ele. Executivos, consultores, empresários... E, sem parcimônia, se jogou à frente das duas estupefatas moças que já se preparavam para a posse daquele almejado pedaço de madeira.

Praticamente delas.

Duas jovens secretárias, uma delas visivelmente grávida, e que há bastante tempo esperavam o longo final da degustação que o casal anteriormente ali sentado teimara em empreender, descompassivo ao extremo. Cercaram a área ao redor do disputado altar que exaltavam em silêncio com os olhos e, então... Aquilo.

Uma verdadeira invasão bárbara.

O rapaz traçara uma rota inimaginável por entre as apertadas mesas do estabelecimento, atingindo, com maestria, o solo no qual fincara sua bandeja contendo o prato de salada, talheres e a garrafinha de mate natural. Da casa. Nada nem ninguém ali conseguiria ser mais cruel, insensível e maquiavélico do que ele.

As coitadas das moças, indefesas, de bandejas nas mãos e incredulidade nos rostos, não puderam contar sequer com os olhares possivelmente recriminadores das pessoas em volta. Mesmo cercadas por tanta gente, as duas tornaram-se vítimas passivas de um crime sem testemunhas, ou registro. Praticamente, ninguém viu ou percebeu o desenrolar daquela cena; daquela manobra asquerosa, covarde.

Uma perfeita jogada de mestre.

Mesmo que trapaceiro, cruel, insensível... Mas sim, um mestre. O rapaz parecia realmente nem se incomodar com o ato que cometera. Como se “se dar bem” fosse o lema de sua vida e um glorioso destino pertencesse indubitavelmente aos mais espertos, como certamente ele se julgava. Demostrava, de fato, estar orgulhoso de si e de suas atitudes.

Desdém.

Mas, mesmo do alto de sua aparente prepotência, não percebera a senhora que o observava de longe. Na verdade, quase ninguém notou a mulher sentada do outro lado do salão, na ponta oposta ao local do ocorrido.  

Uma senhora muito estranha.

Aparentando sabe-se lá qual idade, levantou-se calmamente. Pegou sua bandeja com o prato já vazio e, arrastando sua longa saia, caminhou, da mesma maneira que se erguera, até as duas moças, ainda paradas, de pé, no centro do salão, à procura de algum lugar onde pudessem, finalmente, agora apenas deglutir o conteúdo já gelado de seus pratos.

Mostrou-lhes a mesa estranhamente ainda vazia de onde saíra e, na sequência, terminou seu trajeto bem ao lado do jovem executivo, entretido com sua comida saudável. Então, no exato momento em que as duas mulheres, enfim, arrumavam-se na outra mesa, no extremo oposto do salão, ela sentou-se calmamente diante dele.

Uma senhora de feições oblíquas.

Não conseguiu entender sequer uma das várias palavras que a velha proferiu, pois com o restaurante lotado, em plena hora do almoço no centro da cidade, o barulho estava uma loucura. Parecia outra língua. Talvez Latim; ou algum dialeto há muito esquecido. O fato é que o tom ameno com que foram ditas estas palavras contrastava e muito com o brilho que recebia daquele par de olhos sinistros, fixados nos seus como lanças afiadas.

Mumificados.

Perdeu a fome. A noção do tempo e espaço. As batidas do coração, audição, tato. Até a cor. À noite, sonhou com aquela figura estranha e com o som tenebroso daquelas palavras repletas de significados desconhecidos.

Ficou algumas semanas sem aparecer novamente naquele estabelecimento.

Quando deu as caras finalmente por lá, estava bem diferente. Mais magro, abatido, com olheiras gigantescas e um olhar desesperador. Tenso, ao extremo. Mas, ao avistar o conhecido salão completamente lotado, pareceu formar-se um micro sorriso no canto de sua boca. Correu no instante em que percebeu uma mesa a vagar.

Sentou-se, com muita pressa.

Comia tão rápido que as pessoas em volta chegavam a comentar. Entre uma garfada e outra, olhava em todas as direções, como se um perigo iminente pudesse surgir de qualquer parte, num ângulo de 360 graus naquele salão.

Atormentado.

Talvez por causa de seu agir nervoso, o grupo da mesa ao lado terminou rapidamente a rodada de sobremesa e não tardou em levantar. Mal as pessoas retiraram as bandejas de cima da mesa, o bem vestido rapaz praticamente saltou de onde estava, ainda mastigando alguma coisa, para cima dela.

Afoito.

E a manobra repetiu-se por diversas vezes, aumentando gradativamente o mal-estar que acabou tomando conta de todo o salão. Várias pessoas deixaram o restaurante às pressas e muitos clientes abandonaram seus pratos ainda não terminados.

Assustados com aquilo.

O homem não conseguia mais ficar parado em uma mesa só. A única exceção era se todas as demais estivessem lotadas. Se alguma vagasse, mesmo que do outro lado do salão, ele levantava e saía correndo, desesperado, com a bandeja na mão, até alcançar esta nova mesa liberada e nela arranjar-se. Podia estar no meio de uma garfada, ou acabado de sentar-se, o que fosse...

Ele era impelido sempre a pular para a próxima mesa que vagasse.

Isto lhe causara um estado de nervos tão desconcertante que em suas feições podia-se ver uma angústia profunda. O oposto do que fora visto naquela vez, semanas atrás, quando ele parecia feliz com o seu “feito”; como se estivesse mesmo contente pela pernada que conseguira dar naquelas duas coitadas, roubando-lhes a mesa e rapidamente acomodando-se, em meio ao restaurante lotado.

Satisfação.

Diferentemente de agora, pois a amarga expressão no rosto deste aflito rapaz denotava extremo cansaço. Era como se fosse obrigado a fazer aquilo. Como se agisse daquela forma insana, involuntariamente. Um cacoete desesperador.

Uma sina.

Ou praga. Pois sua até então confortável vida virara do avesso no exato instante em que cruzara com aquela intrigante senhora... Esta sim, aterrorizante. E nunca mais a vira novamente. Passara a tomar diversos remédios, a maioria com tarjas pretas. Mas, sentia-se diferente.

Ele havia mudado.

Outro dia, no metrô, na volta para casa, teve os pensamentos interrompidos pela movimentação dentro do coletivo lotado que, ao parar em uma das estações, acolheu mais alguns viajantes. Dentre eles, uma moça, grávida, de aparência cansada.

Para quem, de imediato, fez questão de ceder seu lugar...


* * *

domingo, 26 de junho de 2011

O Sorriso da Lua

por Ricardo Gnecco Falco
Era mesmo como um fiapo branco.

Curvilíneo, ligando as duas pontas de um infinito negro. Um risco torto de claridade numa lousa insana e triste. Não havia estrelas, fixas ou cadentes. Só a antagonia visceral de um breu sobrecarregado pela luz.

O rosto astuto do céu mirando-me em brilho.

Senti a ameaça em cada poro da pele, arrepiada pela brisa noturna. O ressoar oculto de um deserto sábio e incerto, trazendo-me a única certeza comum aos viventes de toda a Humanidade.

Clara como a Lua.

O despertar de outrora estava lá fora agora, dormindo. Dentro da caixa de madeira repleta de flores restavam apenas os sonhos.

Já em processo de decomposição.

Encarei então, finalmente, o suave sorriso que me chamava; clamava... Sereno.

O gracejo da Lua.

Ri. De verdade. Do fundo de minhas vontades. Sorri com a própria alma, liberta de iniquidade. E, naquele exato instante, revivendo o momento instigante, lembrei-me da frase infante.

A Lua está parecendo um sorriso.

Dita no banco de trás do carro. Instantes antes... O assunto era outro, completamente diferente. Nada a ver. Nada a ver com a Lua. Com a beleza da Lua que só ele via.

E que espalhar queria.

Tudo a ver e ninguém via. Só ele. A frase pairou no interior do veículo como um risco sobre a imensidão mortal, padecendo de atenção. Um pequeno silêncio, reverberando-se antes do eterno calar.

Captada, é claro, primeiramente, por seu sensível radar.

Ecoou na mente de todos ali. Preencheu de silêncio a desconexa correria do dia a dia. Reverteu a agitação mental oriunda dos cosmopolitas estímulos para a transcendental meditação cósmica.

A Lua.

Tanta pressa para percorrer os caminhos e tanta animosidade ao chegar ao fim. Tanto tempo perdido em discursos, em vãs tentativas de firmar-se, para ao final só restar a inércia.

E a impossibilidade da despedida.

Quantas palavras, frases, gestos... Quando, ao cabo, é a silenciosa lembrança dos momentos singelos a ficar.

E o sorriso.

No luar.


* * *

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Castelo de Areia

por Ricardo Gnecco Falco


Dentre todas as coincidências, aquela era a mais comum.

Encontrar Luzia ali, em meio a tantas outras pessoas, não era assim tão inesperado. Era um dia de Sol, a praia estava lotada e ela sempre gostara de Sol e de praia. Conhecer o Rio de Janeiro sempre estivera em seus planos e, nesta época do ano, certamente aproveitava as férias para realizar tão antigo desejo.

Mais este desejo.

Reconhecera Luzia em meio às meninas que formavam uma roda na areia. Era a mais branca do grupo; mais até do que a areia. O contraste da pele com as longas e negras mechas de seu cabelo lhe dava um destaque todo especial. Um brilho.

Luzia era especial.

Sentou-se ao lado dela, como se ali fosse o destino de todos os passos que já dera na vida. Permaneceram calados; ambos. O vento movia lentamente as poucas nuvens no azulado céu e acariciava de modo intrínseco os pensamentos perdidos ali.

Lembrou-se da primeira vez que a vira nua. Inquietante miragem em meio ao devaneio etílico. O andar de cima da casa vazio, cada vez mais e mais distante da festa. O batuque eletrônico em sua exata ruptura ao fechar da porta. O verde mar convidativo daquele inesquecível olhar.

A ilha que trazia o horizonte para perto da praia.

Um vendedor de sorvetes tentava atrair a atenção do grupo com seus urros de praxe. Ver Luzia novamente lhe fazia delirar. Sentado ao lado dela, então, difícil acreditar... Queria poder gritar. Congelar aquele instante.

Derreter aquele gelo gigante.

Relembrar os momentos vividos; os incontáveis sorrisos perdidos. Refazer uma trajetória retórica, ensandecida. Retorcer o aço dos traços contidos no peito. Sonhar a respeito. Perder por direito o acesso ao descaso. Reter o fio da navalha que lhe inflamava a alma e ardia. Voltar para casa no rastro da espuma das ondas, tardias. Sua fortaleza...

Castelo de areia.

Ela, sereia, irretocável. Ele, ser ele, irrevogável. Em busca de perguntas, não respostas. Ter nas mangas as cartas dela. Reviver a vívida vida não vivida junto dela. Deter nas mãos os nãos dela. Ser forte o suficiente para ela. Por ela.

Às vezes sentir saudades, outras vontades.

Algumas meninas se levantaram, indo na direção do mar. Entre elas, Luzia.  Das poucas que ficaram, apenas duas lhe fitaram. Quem era e o que fazia ali, perguntaram. Não sabiam da história de Luzia; não a viam. Nada havia.

Não sabiam de nada...



*  *  *



domingo, 10 de abril de 2011

APREÇO

por Ricardo Gnecco Falco


O cargo era o mais difícil de definir.


Falava a empresa, o local de trabalho, tamanho da sala, benefícios... Mas, quando revelava o valor do salário, era inevitável a pergunta sobre o emprego. Afinal, por mais famosa, gigantesca e importante que fosse a corporação na qual trabalhava, ninguém poderia receber uma soma como a que ele dizia ganhar por mês.

E olha que ainda mentia para menos; bem menos...

Contudo, recebendo um valor tão vistoso e superior aos maiores ordenados de cargo público de seu país, como os de juízes do Supremo, desembargadores; a remuneração do próprio presidente da República... Era mesmo impossível não causar tamanha surpresa.

E nem revelava o salário, mesmo a menor, para qualquer um. Somente alguns poucos familiares e amigos mais próximos. Nem sua esposa conhecia a quantia correta, embora não precisasse se preocupar com isso, pois como era de se esperar, não lhe faltava nenhum bem, qualquer bem, que quisesse ter. E nunca na vida pensara que um dia, qualquer dia, fosse usufruir de tanta fartura.

Mas, nem tudo tinha preço.

Este era o caso do trabalho dele. Simplesmente, não tinha preço. Fazia-o porquê gostava e porque ninguém mais no país inteiro, ou qualquer outro país, o exercia tão bem quanto ele. Era algo como um dom, uma dádiva recebida sabe-se lá de onde ou de quem. Um poder que somente ele, e ninguém mais, possuía.

Ele era único.

Trabalhava com publicidade. Mas, não era publicitário. Na verdade, nunca sequer produziu qualquer peça publicitária. Nenhuma campanha, nenhum anúncio... Nada. Mas trabalhava, diariamente, com propaganda(s). Todas. Via de regra, com as mais caras e melhor produzidas. Tinha contato direto com os melhores profissionais da área. Conhecia e era reconhecido à distância pelos mais renomados marqueteiros do planeta.

Na verdade, era disputado a tapa por todos eles.

Transformou-se, em muito pouco tempo, em um mito. Já tinha gente que até desconfiava de sua existência. Mas ele existia; estava lá. Trabalhava naquela megaempresa de televisão que parecia mesmo tentar desviar todo e qualquer alarde sobre a sua pessoa e, principalmente, sobre a função que ele desempenhava ali.

Virou objeto de estudo e havia até uma equipe contratada para, simplesmente, acompanha-lo no dia a dia, com a secreta função de analisar seu trabalho; tentar entender as escolhas e decisões que tomava.

Era, definitivamente, um mestre.

Tinha curso superior, é claro, mas em outra área, completamente diferente da que ocupava ali. Tornara-se a maior referência da atualidade no ramo, sem sequer ter feito um único curso com aquela especificação.

Era formado em música.

Música clássica. Tocava peças musicais dificílimas já aos sete anos de idade, debruçado sobre o piano velho da tia-avó, herança de família. Um piano que nenhum ente querido queria guardar. Um elefante branco no meio da sala e que ninguém gostava, ou se interessava. Somente ele.

Apreço.

Então, aos vinte e três, a ruptura de seus maiores sonhos... Um acidente de carro no carnaval o obrigara a uma dolorosa estadia no CTI de um hospital. Vários meses. Vários ossos quebrados, principalmente nas mãos e braços. E vários membros da família a menos. O sonho de ser músico levado juntamente do pai, mãe e irmãos naquele fatídico cruzamento.

Recomeçou do zero. Reaprendeu a andar, falar, pegar... Até a sorrir novamente, com a chegada de Mariana em sua vida, pouco tempo depois; ao lado de quem estaria no altar, maternidade e ao final de cada novo e belo dia de vida.

Só não deu mesmo para voltar a tocar.

Mas, como diz o ditado, quando uma janela se fecha, portas se abrem. E Paulo nem percebeu ao entrar no mundo que hoje tão bem lhe faz. E que tão bem o faz, também. Começou meio sem querer, ao sugerir a um amigo, que trabalhava em uma agência, que alterasse a ordem de exibição de um anúncio, veiculado na televisão.

Tal anúncio aparecia sempre após outro, que terminava de uma forma que o incomodava, pois não só apagava a ideia da primeira propaganda, que deveria ficar na cabeça do público, como também revertia a mesma, afastando o consumidor do produto, ao invés de aproximar.

Tudo por causa de uma simples questão de arranjo.

“O compasso está errado”, dizia ao amigo, que se interessou pela sugestão e, ao atentar-se para as demais colocações recebidas, vislumbrou algo ali que até então jamais enxergara. Nem ele, e nem ninguém que conhecia. Era uma ideia totalmente nova, um novo conceito. Algo que, embora óbvio, seria inovador.

A quebra de um paradigma.

E assim foi contratado. Pela primeira vez na vida, entrou em uma agência de propaganda. Foi apresentado pelo amigo aos profissionais da área responsável pelo fechamento dos contratos com as mídias e, também pela primeira vez, um contrato foi firmado com algumas poucas e até então estranhas cláusulas a mais. E que mudariam por completo não apenas sua vida...

Mas também todo o modus operandi da publicidade contemporânea.

A agência do amigo tornou-se pequena e os convites de trabalho começaram a chover de diversos segmentos do mercado. Empresas privadas, grandes organizações corporativas, indústrias, conglomerados multinacionais, redes de comunicação...

Até chegar ao cargo e empresa atuais.

Ele orquestrava, de modo espontâneo, natural e subliminar, a ordem dos anúncios pagos pelas patrocinadoras para irem ao ar. Rarefeito naquela emissora, diga-se de passagem. Cortava alguns, repetia outros, misturava partes, sons... Silenciava imagens. Floreava tons, semitons. Fazia arte sobre a arte com total liberdade e domínio.

Incomparável.

Montava um caminho na apresentação ao público das peças que, ao final do intervalo, juntamente de sua massiva exposição, deslumbravam cada vez mais e mais consumidores e, consequentemente, anunciantes.

Estupefatos.

Conforme constatado por especialistas, as mesmas peças publicitárias, em outros canais e redes televisivas, não surtiam o mesmo efeito, o mesmo impacto nos sentimentos do público, que causavam ao serem apresentadas, após seu arranjo, na emissora onde trabalhava.

Era, realmente, um dom.

Sua função, oficializada na tabela de cargos e salários da empresa, para estranhamento de todos os que tinham acesso às informações sigilosas da corporação ou aos holerites, estava assim definida:

Maestro.

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