domingo, 10 de abril de 2011

APREÇO

por Ricardo Gnecco Falco


O cargo era o mais difícil de definir.


Falava a empresa, o local de trabalho, tamanho da sala, benefícios... Mas, quando revelava o valor do salário, era inevitável a pergunta sobre o emprego. Afinal, por mais famosa, gigantesca e importante que fosse a corporação na qual trabalhava, ninguém poderia receber uma soma como a que ele dizia ganhar por mês.

E olha que ainda mentia para menos; bem menos...

Contudo, recebendo um valor tão vistoso e superior aos maiores ordenados de cargo público de seu país, como os de juízes do Supremo, desembargadores; a remuneração do próprio presidente da República... Era mesmo impossível não causar tamanha surpresa.

E nem revelava o salário, mesmo a menor, para qualquer um. Somente alguns poucos familiares e amigos mais próximos. Nem sua esposa conhecia a quantia correta, embora não precisasse se preocupar com isso, pois como era de se esperar, não lhe faltava nenhum bem, qualquer bem, que quisesse ter. E nunca na vida pensara que um dia, qualquer dia, fosse usufruir de tanta fartura.

Mas, nem tudo tinha preço.

Este era o caso do trabalho dele. Simplesmente, não tinha preço. Fazia-o porquê gostava e porque ninguém mais no país inteiro, ou qualquer outro país, o exercia tão bem quanto ele. Era algo como um dom, uma dádiva recebida sabe-se lá de onde ou de quem. Um poder que somente ele, e ninguém mais, possuía.

Ele era único.

Trabalhava com publicidade. Mas, não era publicitário. Na verdade, nunca sequer produziu qualquer peça publicitária. Nenhuma campanha, nenhum anúncio... Nada. Mas trabalhava, diariamente, com propaganda(s). Todas. Via de regra, com as mais caras e melhor produzidas. Tinha contato direto com os melhores profissionais da área. Conhecia e era reconhecido à distância pelos mais renomados marqueteiros do planeta.

Na verdade, era disputado a tapa por todos eles.

Transformou-se, em muito pouco tempo, em um mito. Já tinha gente que até desconfiava de sua existência. Mas ele existia; estava lá. Trabalhava naquela megaempresa de televisão que parecia mesmo tentar desviar todo e qualquer alarde sobre a sua pessoa e, principalmente, sobre a função que ele desempenhava ali.

Virou objeto de estudo e havia até uma equipe contratada para, simplesmente, acompanha-lo no dia a dia, com a secreta função de analisar seu trabalho; tentar entender as escolhas e decisões que tomava.

Era, definitivamente, um mestre.

Tinha curso superior, é claro, mas em outra área, completamente diferente da que ocupava ali. Tornara-se a maior referência da atualidade no ramo, sem sequer ter feito um único curso com aquela especificação.

Era formado em música.

Música clássica. Tocava peças musicais dificílimas já aos sete anos de idade, debruçado sobre o piano velho da tia-avó, herança de família. Um piano que nenhum ente querido queria guardar. Um elefante branco no meio da sala e que ninguém gostava, ou se interessava. Somente ele.

Apreço.

Então, aos vinte e três, a ruptura de seus maiores sonhos... Um acidente de carro no carnaval o obrigara a uma dolorosa estadia no CTI de um hospital. Vários meses. Vários ossos quebrados, principalmente nas mãos e braços. E vários membros da família a menos. O sonho de ser músico levado juntamente do pai, mãe e irmãos naquele fatídico cruzamento.

Recomeçou do zero. Reaprendeu a andar, falar, pegar... Até a sorrir novamente, com a chegada de Mariana em sua vida, pouco tempo depois; ao lado de quem estaria no altar, maternidade e ao final de cada novo e belo dia de vida.

Só não deu mesmo para voltar a tocar.

Mas, como diz o ditado, quando uma janela se fecha, portas se abrem. E Paulo nem percebeu ao entrar no mundo que hoje tão bem lhe faz. E que tão bem o faz, também. Começou meio sem querer, ao sugerir a um amigo, que trabalhava em uma agência, que alterasse a ordem de exibição de um anúncio, veiculado na televisão.

Tal anúncio aparecia sempre após outro, que terminava de uma forma que o incomodava, pois não só apagava a ideia da primeira propaganda, que deveria ficar na cabeça do público, como também revertia a mesma, afastando o consumidor do produto, ao invés de aproximar.

Tudo por causa de uma simples questão de arranjo.

“O compasso está errado”, dizia ao amigo, que se interessou pela sugestão e, ao atentar-se para as demais colocações recebidas, vislumbrou algo ali que até então jamais enxergara. Nem ele, e nem ninguém que conhecia. Era uma ideia totalmente nova, um novo conceito. Algo que, embora óbvio, seria inovador.

A quebra de um paradigma.

E assim foi contratado. Pela primeira vez na vida, entrou em uma agência de propaganda. Foi apresentado pelo amigo aos profissionais da área responsável pelo fechamento dos contratos com as mídias e, também pela primeira vez, um contrato foi firmado com algumas poucas e até então estranhas cláusulas a mais. E que mudariam por completo não apenas sua vida...

Mas também todo o modus operandi da publicidade contemporânea.

A agência do amigo tornou-se pequena e os convites de trabalho começaram a chover de diversos segmentos do mercado. Empresas privadas, grandes organizações corporativas, indústrias, conglomerados multinacionais, redes de comunicação...

Até chegar ao cargo e empresa atuais.

Ele orquestrava, de modo espontâneo, natural e subliminar, a ordem dos anúncios pagos pelas patrocinadoras para irem ao ar. Rarefeito naquela emissora, diga-se de passagem. Cortava alguns, repetia outros, misturava partes, sons... Silenciava imagens. Floreava tons, semitons. Fazia arte sobre a arte com total liberdade e domínio.

Incomparável.

Montava um caminho na apresentação ao público das peças que, ao final do intervalo, juntamente de sua massiva exposição, deslumbravam cada vez mais e mais consumidores e, consequentemente, anunciantes.

Estupefatos.

Conforme constatado por especialistas, as mesmas peças publicitárias, em outros canais e redes televisivas, não surtiam o mesmo efeito, o mesmo impacto nos sentimentos do público, que causavam ao serem apresentadas, após seu arranjo, na emissora onde trabalhava.

Era, realmente, um dom.

Sua função, oficializada na tabela de cargos e salários da empresa, para estranhamento de todos os que tinham acesso às informações sigilosas da corporação ou aos holerites, estava assim definida:

Maestro.

* * *
 


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Obra da Destino



por Ricardo Gnecco Falco, free lancer


O respeitado Sr. Amor de Facto Albuquerque e sua esposa, dona Felicidade Plehn Albuquerque, grávida de seis meses, foram vítimas de um sangrento acidente nesta madrugada na avenida Destino, altura do Insensatez Shopping Center.

Os bombeiros (quartel Samaritano) afirmaram que são comuns chamados para socorrerem vítimas de acidentes naquela área. Testemunhas da tragédia disseram que tudo aconteceu muito rápido, devido a uma obra na pista, mal sinalizada. O veículo, um importado preto (placa R&V 1994), que vinha correndo muito, bateu em um trator de fabricação árabe, da companhia Fathá Lidhad e capotou.

O casal, gravemente ferido, foi levado para o Hospital da Esperança, em Santa Fé. Amor não resistiu aos ferimentos e teve uma parada cardíaca, ainda na ambulância. Ao chegar ao hospital, Felicidade entrou em trabalho de parto e deu à luz uma menina.

O bebê prematuro foi levado imediatamente para a UTI e tornou-se órfão aos dez minutos de vida.

Lembrança, irmã de Felicidade e agora responsável pela criança, chegou ao hospital pela manhã e entrou em estado de choque ao ser notificada dos óbitos pelo doutor Tempo de Castro, que terminava seu plantão.

Às sete horas da manhã, à base de fortes calmantes, Lembrança subiu até a Unidade de Tratamento Intensivo do Esperança e foi informada de que o bebê não corria mais risco de morte. Às nove horas, ainda muito abalada, disse que iria manter o nome planejado para a criança, em homenagem à irmã.

Saudade, que por apenas alguns instantes conheceu Felicidade, é a cara do Amor e será batizada no próprio hospital, assim que sair da incubadora.



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O Regresso

por Ricardo G. Falco.



Quando a página finalmente desprendeu-se da lombada do livro já tinham se passado trinta e cinco anos. Trinta e cinco anos de uma luta que, agora, realmente comprovava-se em vão. A lei da Física vencera. A gravidade, por último, mostrara-se mais forte.

Mas foram anos também de intenso aprendizado; de imensa aceitação e — Por que não? — de indiscutível regozijo.

Voando pela imensidão daqueles intermináveis segundos, num inigualável sentimento de liberdade e missão, a amarelada folha pousara exatamente à frente de João. E, do infinito inatingível contido naquela esquecida página, pôde então a envelhecida tinta chamar-lhe a atenção.

Era a data de seu aniversário. Doze de setembro de mil novecentos e setenta e cinco. O exato dia, mês e ano de seu nascimento. E, pela primeira vez em toda a sua vida, João teve a certeza da hora exata de seu natalício: dez e dezessete da manhã. Não poderia ser diferente.

O tiro fora perfeito.

Seria uma excepcional chance; uma extraordinária ocasião. Um momento insólito; único. Nem ontem, nem amanhã e nem em nenhum outro instante o impacto daquela coincidência surtiria o efeito desesperadamente — foram trinta e cinco anos! — desejado.

Aquela folha continha a senha mágica que viria a se tornar o tão esperado ingresso para a viagem de volta à origem. De ambos: livro e homem.

Regresso.

Ao encontrar a esquecida publicação de onde a velha folha desprendera-se, lá do alto da estante, João finalmente compreendeu a lição.

Preso a fotografias, cartas, selos e memórias impróprias, chegava ao final de um longo e revolto ciclo. Órfão após poucos minutos de seu nascimento, João passara a vida inteira culpando-se pela morte da mãe, cuja falta sentia em cada segundo de sua triste e vazia existência.

Mas aquele livro; aquele velho e empoeirado livro, trazia muito mais do que a exata data de seu nascimento estampada na forma de um carimbo. Aquele livro trazia-lhe a paz. A cura.

A liberdade.

Ninguém entenderia a origem do belo e intenso sorriso no rosto do rapaz, diante do balcão de entrega, pouco tempo depois. A nova gerente da biblioteca preocupava-se mais em chegar ao valor aproximado da dívida a ser paga. Um verdadeiro absurdo! Do tamanho do descaso que aquele antigo carimbo delatava...

Ligou para a diretora da instituição que, de imediato, desceu até o térreo para averiguar a veracidade do inusitado fato. Uma senhora já idosa, mas de aparência dócil e sábia, adquirida ao longo de décadas e décadas de vida. Boa parte destas, por sinal, dedicadas ao serviço naquela biblioteca, sua verdadeira paixão.

E, nestes anos todos, não se lembrava de ter visto algum caso sequer parecido com aquele. Na verdade, já não se recordava de muitas coisas... Mas, engraçado, ao olhar para o enorme e brilhante sorriso no rosto daquele rapaz, podia jurar que já o tinha visto antes, na face de uma bela e radiante jovem, que entrara em trabalho de parto bem ali, na frente daquele balcão.

Trinta e cinco anos atrás.



* * *

segunda-feira, 31 de maio de 2010

REDE DE CONTOS






Projeto Piloto – 1ª antologia de contos reunindo textos de diferentes autores, todos membros da famosa comunidade literária do Orkut, a N.E.B. – Novos Escritores do Brasil


Com quase 10.000 membros, este verdadeiro “celeiro literário” reúne jovens autores, de diversas partes do Brasil e do mundo, que se “encontraram”, unidos pela mesma paixão, numa atmosfera de ajuda mútua, para a mostra de textos, trabalhos, troca de experiências, impressões, dicas, críticas e discussões sobre literatura em geral.


Na N.E.B., são promovidos concursos literários internos e também produções que já ultrapassaram a barreira do virtual, como a publicação de uma revista literária com distribuição em todo o território nacional (“O Verbo”) e o presente Projeto Piloto, intitulado REDE DE CONTOS, a primeira antologia de contos reunindo alguns dos melhores trabalhos postados na comunidade, escolhidos entre os próprios autores.


Seguem as fotos "fresquinhas" do primeiro lote do livro, recebido semana passada: 

  


* * *

sábado, 20 de março de 2010

"Valeu, Tio!"

por Ricardo Gnecco Falco

Entrou no ônibus após uma pequena corrida.


Não queria perder a oportunidade que o sinal de trânsito fechado lhe oferecia. Já na roleta, percebeu o missionário que, na forma de vendedor de cocadas, bradava como de costume sua história de conversão aos passageiros.


Em meio ao testemunho proclamado no interior daquele coletivo, o recém-chegado passageiro caminhou pelo centro do longo veículo a conferir o troco recebido. Não vira o rosto da trocadora, nem do entusiasmado convertido, assim como o da maioria dos trabalhadores que, após mais um extenso dia, voltavam para suas casas através daquele popular meio de transporte.


Não havia bancos vagos totalmente, apenas um lugar aqui, outro ali, sempre ao lado de algum outro alguém sem rosto e que, para seu desgosto, não muito espaço ofereciam para ele e sua enorme sacola de doces.


Sim. Da mesma forma que o vendedor de cocadas, também ele, o recém-chegado passageiro, carregava guloseimas. Não portava uma cesta, como o prolixo missionário, mas segurava as alças de uma vultosa bolsa plástica, repleta de chocolates, balas, bombons e outras iguarias.


Estas não eram para vender, ao custo da solidariedade alheia, em prol dos irmãos atendidos pela casa onde e ex-dependente químico declarava trabalhar; mas sim para o seu próprio consumo.


No centro da cidade existia uma enorme casa de doces, que vendia em médias quantidades a preço de atacado. O recém-chegado passageiro abastecera-se lá. Sua cota mensal de glicose. Era início de mês e, com o salário recebido no bolso, dera início ao costumeiro estoque.


Sentou-se ao final do coletivo; no penúltimo banco, pois visualizara um espaço no fundo do ônibus onde descobrira não haver ninguém ao lado, possibilitando-o assim começar a saborosa degustação. Mas, ao aproximar-se, percebera o motivo daquele inusitado vazio, a ele oferecido em plena hora do rush.


Havia um menino de rua deitado sobre o último assento, ocupando o lugar destinado originalmente para duas ou três pessoas.


Descalço, maltrapilho e sujo, o dimenor também portava um saco plástico, só que o detinha na altura da boca, pressionado em sua abertura por um par de mãos trêmulas, ainda sob efeito do alucinógeno vapor.


O rosto daquela criança em êxtase, retrato cruel da realidade urbana, foi a primeira e única feição avistada pelo homem dentro do coletivo. Torpor infantil. Contraste.


Asco.


Então, após entreabrir somente um dos olhos, o menino foi diretamente atraído pela transparência da sacola plástica carregada pelo recém-chegado passageiro; o único a sentar-se próximo a ele.


Levantou-se com dificuldade e, no resto de inocência que a brutalidade desumana daquela grande cidade ainda lhe permitia experimentar, estendeu os braços na direção da sacola, numa mistura de sonho e realidade.


“Valeu, tio!”, disse o moleque com o esboço de um tenro sorriso nos lábios marcados de cola.


“Valeu, tio!”


Mais ainda do que o sorriso, ficou marcada na mente do recém-chegado passageiro aquela frase. Alegre. Aliviada. Feliz. Uma simples e pequenina frase. Uma meia sentença. Muito mais rica em sua exclamação. Uma pequena pausa em meio a uma meia vida.


Sem sua sacola de doces, o passageiro agora não mais era um recém-chegado. Estabelecera contato direto com a plenitude de sentido coletivo. E único. Desfizera-se de sua máscara, seu muro, sua redoma de vidro temperado.


Temperança.


Tocado pelas mãos daquela criança, sujas pelo mesmo cimento do intransponível muro agora derrubado, o passageiro já havia feito o verdadeiro percurso. O caminho precursor de todos os trajetos.


Concretos acessos.


Pela janela avistava o invisível. Marquises, pontes, viadutos... A cidade estava toda lá fora. Viva. Reflexos convexos de encontro a um complexo coletivo. Cidade. A rima na mente, incoerente, querendo conversa. E se tudo tivesse sido diferente para ele? E se, nessa idade... E se?


Cidade.


O doce sentido das palavras, degustado em forma de poesia. O abrupto encontro de realidades perdidas. Perdidas em meio a um insustentável sentido. Idas e vindas. A pressa. O medo. O egoísmo e a falsa sensação de impotência. Desculpas de culpas cabíveis. Reflexa ação do pensar coletivamente. Ônus.


Ônibus.


O resto do percurso foi feito em silêncio. Tudo diferente do normal. O vendedor de cocadas desceu; alguns outros passageiros desceram. O coletivo flutuando sobre as trilhas perdidas de uma tarde em despedida. Só havia aquele rosto agora. E aquela frase...


“Valeu, tio!”


E aquele sorriso infantil.


* * *

quarta-feira, 3 de março de 2010

TUDO AQUILO *

por Ricardo Gnecco Falco

– Eu hoje me dei conta de que não consigo mais chorar.
As cartas, certamente surpresas, não mais podem me encarar;
não entorto mais suas linhas, devagar;
nem rego seus pontos, com pesar;
sequer desfaço suas dobras; nem pensar.


Eu hoje percebi que naquela única fotografia
só você aparecia.
Nada mais acontecia.
Só você me entorpecia.
Só você me escondia.


Eu hoje pude ver o que também se esconde por trás
de toda essa lembrança que agora se refaz.
Perdi de vez, finalmente, o que sempre achei fugaz
e de uma hora para outra descobri a paz.
É incrível como uma ilusão derradeira se desfaz...


Eu hoje pude ver que tudo aquilo que era meu,
só era meu porque eu era seu.
E no distante erro que um de nós não cometeu
pude sentir como sentiu Romeu
aquela perda em que se converteu.


...
* escrito em 09/11/1996

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A Conquista

por Ricardo Gnecco Falco

Era engraçado...

Uma pista de dança repleta de gente, numa afamada casa noturna carioca, e ele ali, olhando para cima, para os lados... De vez em quando fixava o olhar em algum ponto da parede; nas geringonças do teto; em algum holofote...

Sei lá onde.

E também não sei se todo mundo reparava nisso. Nisso e em todas as outras coisas que envolviam esse cara. Na verdade, acho que era ele quem me envolvia; ele que me atraía com essa aura de mistério dele. Parecia estar sempre além...

Ele era assim e ponto.

Numa noite dessas, ele simplesmente fechou os olhos e dançou... Dançou por quase meia hora sem abrir os olhos. Nem uma única vez. Tenho certeza disso, pois estava bem na frente dele. Eu já estava naquele estágio de “tenho que descobrir o que é que esse cara tem...”, entende?

Eu tinha que saber por que ele era tão diferente. Por que ele chamava tanto a minha atenção? O que ele ligava em mim, que me deixava totalmente ligada nele...

Era estranho.

O cara podia reparar no parafuso à mostra de uma caixa de som, num canto qualquer da pista, e ficar absorvendo o fato como um colecionador a degustar um vinho, mas era incapaz de perceber que a pessoa em frente ─ bem na frente! ─, não tirava os olhos dele.

Chegava, conversava com os conhecidos, brincava; ria com as amigas ─ como eu as odiava! ─, dançava; esbaldava-se na pista. E eu ali, seguindo-o pela boate toda. Depois ele simplesmente ia embora. Este era outro ponto. Sempre ia embora antes do fim. Tinha disso, também...

Ele nunca ficava até o final.

Esta era outra característica deste ser. Outra particularidade desse verdadeiro emblema que apareceu certa noite na minha vida e que nunca mais me deixou em paz, forçando-me a procurar descobrir tudo que podia sobre ele.

Não que ele fosse um deus grego. Na verdade estava longe disso. Mas, como já disse, ele era diferente. Tinha alguma coisa nele... Alguma coisa especial. Algo que o tornava único.

Alguma coisa que me fez fazer tudo o que fiz.

Eu não ia mais para as outras pistas; passava a noite inteira na que ele gostava de ficar. Sabia os dias que ele costumava aparecer por lá e também os que ele jamais apareceria...

Já sabia quais eram as bandas prediletas dele; os DJ’s que ele mais gostava; os tipos de garotas que chamavam a atenção dele... As festas que ele freqüentava; os malucos que ele conhecia; as camisas que ele mais usava; o carro dele...

Orkut, Fotolog, Myspace, Facebook...

Cada dia era uma descoberta nova; uma outra prova. Um novo e excitante desafio. Eu não me interessava por mais nada. Nada nem ninguém que não tivesse algum tipo de ligação com ele.

E, de certa forma, comecei a cuidar um pouco mais de mim, também. Parei de fumar, pois ele detestava fumaça de cigarro; bebida alcoólica então... Portanto, mantinha-me também sóbria durante toda a noite. Enfim... Descobria e vivenciava as maravilhas escondidas na difícil tarefa de se investigar ─ a fundo! ─ alguém.

Alguém como ele, é claro...

Alguém com o poder de ditar mudanças em meu comportamento que iam além de quando estava em sua presença. Ele influenciava também as minhas escolhas do dia-a-dia.

Eu ainda nem sabia, mas já tinha começado a minha mutação...

Tanto é que, depois de alguns meses, eu fui reparar que não havia ficado com ninguém. Ninguém, mesmo! Quer dizer, eu nem me toquei disso, né... Minhas amigas é que repararam. Logo eu... E confesso que fiquei surpresa ao me dar conta da realidade.

Estava realmente diferente.

Tinha uma amiga minha, a mais doidinha de todas, que não tardou em juntar os fatos. Sabia que eu estava interessada por alguém. Veio com o papo de que eu andava estranha; que estava preocupada comigo... Disse que eu podia contar com ela para o que precisasse. Mas o fato é que eu estava mesmo diferente. Eu agia diferente. Eu via as coisas de forma diferente e, mais cedo ou mais tarde, o motivo disso tudo viria à tona de vez...

Cedo ou tarde, meu segredo seria revelado.

E, como se já não bastasse a situação na qual eu estava, a fulana ainda resolveu me pedir ajuda para chegar num cara que ela estava de olho já há algum tempo. Não preciso nem falar quem era, né...?

O próprio.

Entretanto, foi engraçado no início... Eu vi ali uma situação onde eu poderia, finalmente, resolver um impasse que se estendia muito além de minha compreensão... Parecia inacreditável, mas eu ainda não havia trocado sequer uma simples palavra com ele.

Nem uminha...

E eu tinha certeza que ele não se interessaria por ela, pois já me considerava conhecedora dos gostos dele também. Afinal, eram meses de vigilância intensa... Seria a tão esperada chance de me comunicar com ele. E, nada melhor do que tentar apresentar-lhe uma amiga. Uma pessoa nada a ver... Seria perfeito! Eu ainda sairia por cima.

Mas...

Sim. Eles ficaram. Ficaram já ali, na primeira vez. E eu nem precisei entrar na jogada. A fulaninha foi direta. Rápida e certeira. Não me deu nem tempo de absorver o acontecimento.

O inusitado episódio.

Os dois ali, no sofá do segundo andar, se beijando como se tivessem sede. Muita sede. A ficha não caiu, sabe...? Só mais tarde. E então desabei. Não entendia o porquê daquilo; porque eles haviam ficado... A depressão rolando solta. Consumindo meu sono, minhas vontades... Parei com tudo.

Inclusive com o que havia parado.

Fumava que nem uma louca; comia como uma vaca e me vestia da pior forma possível. Achei-me a pior das criaturas. O ser humano mais rejeitado dentre todos os viventes; e até em morte confesso que pensei.

Parece bobeira; exagero... Mas pensei mesmo em desistir de tudo. Não sei nem como foi que não fiz coisa pior, mas tudo que fazia era visando a minha própria destruição.

Queria desintegrar, sumir, desaparecer da face da terra.

Enfim... Na minha angustiada mente, eu já fantasiava até o casamento deles. Os dois tinham se dado tão bem... E eu sabia que ela estava fazendo tudo aquilo só para me atingir.

E me acertou mesmo em cheio.

Até que numa noite ─ após várias semanas de sofrido isolamento ─, resolvi testemunhar de longe a alegria daquele casal ridículo que não parava de se agarrar no meio da pista. Comecei a beber e a beber mais e mais... Passei tanto da conta que a última coisa que lembro ter feito foi tão vergonhosa que nem tenho coragem de contar... E isso sem falar das coisas que eu fiz e não tenho a mínima lembrança.

Se valeu a pena?

Não sei... Mas faria tudo de novo. Na verdade, quase tudo. Pois, se tivesse escolha; se pudesse realmente decidir entre o que sentir e o que não sentir... Se tivesse algum mísero controle sobre o meu coração...

Eu jamais teria me apaixonado por ele.

Todavia... De tudo o que fiz; tudo o que fiquei sabendo depois sobre aquela fatídica noite... A bebedeira, o escândalo, o mico... Tudo o que aconteceu... O mais importante, o mais marcante... O mais terrível e ao mesmo tempo o mais maravilhoso de tudo...

Foi que eu saí de lá nos braços dele.


* * *



sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Oito de Copas

por Ricardo Gnecco Falco 

Ernesto suava sem parar diante da churrasqueira...

Estava com a turma da faculdade em uma espécie de confraternização de fim de período.  O sítio do colega anfitrião ficava ao lado de uma enorme pedreira e, além do calor absorvido pela gigantesca montanha de pedra durante todo aquele dia, somado ao bafo oriundo das brasas sobre as quais eram assadas as carnes, havia ainda o abrasivo efeito da meia dúzia de caipirinhas que já tinha tomado.

Tudo isso, no final daquela típica tarde de verão, fazia Ernesto sentir-se realmente desconfortável. Mas, mesmo consciente de todas estas variantes, o rapaz sabia a verdadeira origem das infindáveis gotas que brotavam por toda a extensão de seu corpo; uma infinita nascente viva...

Ernesto tinha um pronunciamento a fazer.

Iria abandonar o curso de engenharia que já estava em reta final para, surpreendentemente, mudar de forma radical sua futura carreira. Ernesto queria graduar-se na área de humanas. Na verdade, já havia até feito a prova para ingressar na nova faculdade. Sentia uma incontrolável vontade de entender o comportamento das pessoas.

Psicologia...

E abriu para todos ali que a decisão tomada devia-se ao ocorrido naquele mesmo sítio; na mesma mesa de madeira que agora servia de base para os incrédulos olhares de seus amigos, que lhe fitavam num silêncio típico de quando se conhece a imutabilidade de um fato concreto.

Concretamente absortos.

Também fora ali, naquela mesa, após algumas latinhas sorvidas numa noite quente do verão passado, que Ernesto experimentara pela primeira vez a estranha sensação que tentava agora, um ano após, definir em palavras para seus amigos...

Onisciência.

Foi a única palavra encontrada. Assim como apenas um fora o número visualizado em sua mente; na forma de uma curiosa sombra a projetar-se sobre a fina parede de plástico que tinha à frente. Jogavam baralho naquela mesma mesa incrédula de agora, na qual outrora Ernesto, inacreditavelmente, concebera a imagem do número pintado do outro lado da carta.

Era um oito; escuro.

De paus ou espadas... Um oito negro. A carta estava apoiada de lado sobre a mesa, segura pelas mãos de uma colega de turma; hoje ausente. Mais do que ver, Ernesto, inexplicavelmente, “pré” sentira o que existia do outro lado daquela matéria...

Um oito de espadas.

Pensara tratar-se de algum estranho efeito etílico. Mas já no dia seguinte, durante o café da manhã, a ressaca apresentar-se-ia ainda mais poderosa, fazendo Ernesto passar toda a primeira metade daquele revelador domingo sentado sozinho diante da piscina, numa cadeira na varanda, brincando de embaralhar aquelas bizarras cartas esquecidas no canto da cozinha.

Todas transparentes...

E das cartas passara então a intuir os números discados nos telefones celulares dos amigos, mesmo quando virados de costas para ele. Visualizava os algarismos no mesmo ritmo de pensamento dos autores das discagens.

Já lhe surgiam de forma quase natural.

Sua brincadeira predileta tornara-se a adivinhação. Mandava os amigos, familiares, a futura noiva... Cada um sentar-se diante dele e, concentrando-se, pedia para pensarem em um número. Qualquer número...

Ernesto adivinhava.

No início, ainda restavam algumas dúvidas. Mas, seus amigos mais próximos, e principalmente sua noiva, acabaram aceitando aquele instigante fato. Ele acertava mesmo... Vez ou outra tentavam encontrar alguma falha, algum “defeito”. Sem prévio aviso, mostravam-lhe nas ruas carros desconhecidos, de ângulos pré-determinados; qualquer carro...

Ele falava os números da placa.

O jogo na televisão começava e era só o placar aparecer zerado pela primeira vez no canto da tela; qualquer jogo...

Ele predizia o saldo de gols da partida.

Rápida e faceira, Raquel — a noiva — apareceu certa ocasião com um canhoto de loteria vazio. Deixou-o, como quem não quisesse nada, em cima da mesinha de cabeceira do quarto de Ernesto, após uma intensa, voluptuosa e atípica noite de sexo.

Raquel estava com um sorriso misterioso...

Mas foi somente naquele momento, contando para os amigos sobre o histórico que o levara à decisão há pouco anunciada, que Ernesto atentou-se para o significado do primeiro número adivinhado naquela mesma mesa, um ano atrás. O primeiro presságio...

Um explícito agouro.

Um oito, invertido e negro. Tenebrosa alegoria. Genuíno símbolo de infinito. Infinitamente sombrio. Uma enfadonha profecia sobre seu futuro e inglório relacionamento com Raquel, colega de turma que empunhava aquela carta e por quem era apaixonado, desde o primeiro período. O representativo fiel de seu trágico noivado...

Oito de espadas.

Raquel por fim confirmaria aquele prognóstico, revelando sua verdadeira face. E frieza. Com oito dígitos na conta, fugiu não se sabe até hoje para onde com um ex-namorado, do tempo do colégio. Deixou para trás apenas uma negra espada fincada no coração atormentado de Ernesto, que nunca mais se utilizou do dom recebido.

Sina.

Ernesto agora buscava conhecer a essência humana. A beleza da alma. A mansidão. O atrativo e seguro caminho das virtudes. O ser antes do ter. A imensidade e onipotência do Amor. Ilimitável; eterno. Sim... Ainda procurava o infinito.

O que Ernesto queria mesmo era encontrar um oito de Copas.


* * *


sábado, 7 de novembro de 2009

ENTREVISTA



A Câmara Brasileira dos Jovens Escritores (CBJE), editora que vem há anos reuindo em suas antologias (agora mensais) uma parcela significativa da produção literária dos novos autores nacionais (e onde foram publicados todos os meus contos aqui expostos), recentemente fez uma entrevista comigo.

Deixo abaixo o link para a página da editora onde a entrevista com quem vos escreve foi publicada. Quem quiser conferir é só clicar abaixo:


Entrevista com o autor


Grande abraço em todos,


Paz e Bem!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Um reles traço...

por Ricardo Gnecco Falco
De:   Ana Carolina <carolzinha@rothymail.com>
Para: Lista Formandos <formandos2009@inhauugrupos.com.br>
Cc:   Bruno <bruno.salles@rothymail.com>
Cco: Rotozão <rogerio.sena@vmail.com >

Assunto: Contagem Regressiva!!!


Oieee...
Td bem galera?!  Faltam menos de dois meses para a nossa formatura!!!
UH-HUUUUULLLL!!!!!!!!!

Gente...
Como todo mundo sabe, eu me caso daqui a dois dias. Todos vcs já receberam o convite e, pela lista de confirmação que vi ontem, a grande maioria estará lá!!!
Estou muito feliz... Minha vida está parecendo um conto de fadas! Parece mais um sonho do que realidade... Estou vivendo o melhor momento de minha vida... Realizando o maior desejo que qualquer pessoa pode ter... Estou amando, e sendo amada!
Mas sei também que, quando alguém está tão feliz como eu estou, acaba provocando certos sentimentos em algumas pessoas que, inexplicavelmente, passam a querer destruir, a todo custo, a felicidade de quem nunca fez nada de mal para elas.
Fui na facul na terça e, como tinha o primeiro tempo vago, decidi passar na biblioteca para checar alguns e-mails e resolver algumas pendências típicas de quem está prestes a se casar... E qual não foi minha surpresa ao abrir minha caixa de msgs e me deparar com aquilo?!?
Sei que vcs já sabem do que se trata, pois a mesma coragem que a pessoa não teve para se identificar, teve em ousadia para enviar o e-mail para (toda!) a nossa lista de formandos, criada para servir de ferramenta facilitadora para os arranjos e decisões a serem tomadas de comum acordo, em prol de nossa festa de formatura.
Foi um ato covarde. Covarde, cruel e infrutífero, pois é tudo mentira! E tenho certeza -- cer-te-za! -- que nenhum de vcs, até mesmo os que não tenho muito contato ou muitas afinidades, acreditou em sequer uma linha daquela mensagem!
Todos vcs sabem que eu nunca -- nunca! -- fiquei com o Rogério e, na última festa de arrecadação citada no e-mail, naquele sítio lá em Vargem Grande, eu saí logo no início, pois estava passando muito mal. Jamais poderia “ter sido vista dentro da picape dele, no estacionamento”, depois do show da banda, que só foi terminar de madrugada (!), como fiquei sabendo depois.
No aniversário da Amanda, naquela boate na barra, eu sequer esbarrei com ele! Fiquei o tempo todo na mesa com o Bruno e, quando ele foi embora (pois ele acordava cedo no dia seguinte; e não por termos brigado por eu ter bebido demais, como insinua o e-mail), eu só fiquei mais um pouco para não chatear a Amanda e voltei de táxi para casa, e não de carona com o Rogério (que nem sequer vi na festa!!!).
E todas; todas as demais insinuações e infundadas “provas” contra mim que o anônimo “delator da verdade” (como se auto-intitulou) escreveu, não passam de uma invejosa e frustrada tentativa de acabar com a alegria que, certamente, este desprezível ser jamais experimentou em sua deprimente vida.
De minha parte, esta pessoa é digna única e exclusivamente de pena; um sentimento que consegue ser ainda pior do que a inveja que claramente domina o coração e escraviza a mente desta infeliz alma “delatora da verdade”.
Por isso mesmo, não vou deixar que esta infeliz criatura estrague o mágico momento que estou vivendo e, ao invés de me abater, venho aqui reforçar o convite e dizer que espero encontrar todos vocês lá na igreja, quando finalmente entrarei para o time das (bem!) casadas!! Né, mozi?! (rs!)
E, depois da cerimônia, quero ver todo mundo lá no clube para nos acabarmos de vez na festa!!!
UH-HUUUUULLLL!!!!!!!!!
Nos vemos no sábado!!!
Beijinhos,
Carol.
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. . .

Este foi o e-mail que Carol mandou para todos.

Todos que receberam a tal difamatória mensagem... O anônimo e covarde e-mail que foi intencionalmente copiado para todos seus colegas formandos e, também, para seu noivo.

O Bruno.

Agiu precipitadamente, sem dúvida. A demasiada preocupação em desmentir o que fora escrito na tal mensagem anônima certamente acabou por complicar ainda mais a situação de Carol. Pois, como se diz num famoso provérbio, quem não tem nada a dever é exatamente quem não tem nada a temer.

E Carol temeu...

Tudo bem que ela estava nas vésperas de seu casamento com Bruno e, talvez exatamente por isso, não podia dar-se ao luxo de permitir que mal-entendidos continuassem mal entendidos. Ela tinha mesmo que explicar tudo. Para os colegas e, principalmente, para seu noivo...

O Bruno.

Porém ─ e em toda história que se preze sempre existe um porém ─, o que Carol não sabia é que Bruno nem havia lido o e-mail original. Na verdade, ele não se interessava pelas trivialidades da internet já fazia bem umas duas semanas. Só tinha olhos para a noiva; já quase esposa. E só ficara sabendo da existência do dito cujo exatamente na véspera do casamento, ao encontrar uma mensagem da amada em sua menosprezada caixa de entrada. Pensara até tratar-se de algo sobre o casamento, tão próximo e já latente. Ainda mais com aquele título...

Contagem regressiva!!!

Mas, não... Era o e-mail de resposta que Carol, precipitadamente, enviara a todos da lista. Todos os que, supostamente, teriam recebido a tal difamatória mensagem; o e-mail anônimo e covarde que julgara ter sido direcionado para todos seus colegas formandos e, em cópia, também para seu noivo. O Bruno. No entanto, o fato é que...

Apenas Carol recebera aquele primeiro e-mail.

Até hoje não se sabe se o inominado autor confundiu-se ao preencher o cabeçalho da mensagem, ou se, descartando-se a opção de que tudo tenha sido proposital, aconteceu realmente algum tipo de falha no envio da mesma, fazendo com que, despercebida e ironicamente, apenas a própria vítima recebesse aquele revelador e incômodo e-mail.

Na verdade, todos os demais endereços eletrônicos inseridos naquela amarga mensagem tinham um simples, porém importantíssimo, detalhe... Um imperceptível “_underline”, colocado antes do início dos nomes dos destinatários, diferenciando-os assim dos endereços de e-mail verdadeiros.

Um reles traço...

Linha baixa; sorrateira trilha. Exatas incertezas transbordantes de um suposto rio... O infinito devaneio de um inconsciente coletivo. Automáticas conseqüências de um inesperado enlaço.

Se Carol tivesse conseguido vencer seu vício diário de acessar a internet e, principalmente, o impulso de reagir imediatamente àquela fatídica mensagem, ou sabe-se lá por qual outro motivo, nada do que acabou acontecendo na vida desta atormentada jovem teria acontecido. Ou melhor...

Não acontecido.

Tudo em decorrência daquele instintivo ato, de imprevistas implicações... Impensado traço, de irrefletidas seqüelas... Pois só o que se sabe até hoje é que rolou um ti-ti-ti e tanto no dia seguinte, na aula. E outro maior ainda quando o casamento foi adiado.

Sem data marcada...
 
* * *


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Desespelho...

por Ricardo Gnecco Falco

Era estranho...


Beijava bocas sem rostos como se buscasse o antídoto para uma latente dor. Explorava corpos desprovidos de nomes e em suas toscas pilhas me perdia. Trilhava caminhos opostos, impostos; sobrepostos... Chafurdava na lama impiedosa da madrugada, mergulhando de cabeça nos bueiros, poços. Chegava a ser poético, mas insano.


Dor de amor.


Ter de passar por tudo isso, para só então começar a me perguntar: Para quê? Ter que atingir o fundo e só lá embaixo descobrir que fora eu mesma a saltar... Estar dentro de uma situação claustrofobicamente real e então perceber que na realidade fora eu mesma a me trancar ali. Era tudo tão simples. Tudo tão complexo...


Tudo tão contraditório.


O telefone tocava. Vibrava. Roía. Escandalizava... Minha cabeça girava. Sentia o gosto na boca borrada que o espelho em primeiro plano delatava, escondendo a metade do corpo tombado e exaurido sobre a cama, ali atrás... Recompensado. Entorpecido.


Eu queria que tudo fosse diferente.


Que fosse tudo diferente... Olhava-me no espelho daquela espelunca e não me encontrava do outro lado. Na verdade não sabia mais de que lado estava; qual era o lado certo... Onde estava? Quem eu era? Por que fizera aquela tatuagem horrível que a menina do espelho me mostrava? E quem eram os caras deitados na cama, ali atrás? Não...


Não sabia mais quem eu era e nem o que eu fazia.


Aliás, o que eu fazia ali...? Que lugar era aquele? O que eu havia tomado...? Eu não queria ter estado no meio de toda aquela gente. Não sabia se atendia aquele maldito telefone, ou se me escondia. Eu não queria ter estado ali! Humilhada... Usada... Eu só queria que tudo aquilo fosse diferente.


Vil.


Eu estava magra. Engraçado... Sempre quisera ser magra. Passara a adolescência inteirinha lutando contra a balança; me contendo, segurando. Sempre desejara ter um corpo assim. Mas não assim... Sabe quando a gente se olha e não acredita que seja a gente naquela foto? Era assim que eu olhava pra mim naquele espelho... Sempre quisera ter um corpo daquele. Sem nenhuma gordurinha. Mas não daquela forma. Não daquele jeito. O corpo tão sonhado...


Em meio a um pesadelo.


Não sei quanto tempo fiquei olhando para mim mesma, dentro daquela pocilga; diante daquele espelho que parecia quebrado. Aquele maldito telefone se esgoelando... Talvez o tempo necessário para que eu pudesse me reconhecer naquela imagem. Despertar. Sem a maquiagem, a máscara... Assustadoramente real. Encontrar-me. Descobrir-me. Ali, nua, durante um curto período de lucidez.


Ensandecidamente lúcida...


Eram doses pequenas no início. Passavam quase que despercebidas. Imperceptivelmente absorvidas. Depois era o efeito a passar rapidamente. Tão rápido que nem mais se fazia sentir. Não... Não estou falando sobre drogas. Também não estou afirmando que não as usasse. Mas nenhuma delas poderia sequer aproximar-se do efeito que as tais lembranças surtiam em mim. Eu repassava as cenas em minha mente... Uma a uma.


Confusa mente...


Geralmente quando acordava. Era quando a cabeça parecia estar ainda livre do cimento que a insana realidade, no final do dia, como um fardo insustentável, em minha mente incutia. E só nos dias bons isso acontecia. Pois a dor de cabeça, normalmente, já me acompanhava desde quando levantava. Assim como a ressaca, o enjôo, a tontura...


A culpa.


Poesia. Herege; mundana... Mas poesia. Eu abrindo os olhos e encontrando... Ele. Os objetos, assim como as pessoas, passando como se estivessem, todos, em câmera lenta. E m c â m e r a l e n t a . Era sempre ele... Como o vento, seus dedos acariciando meus cabelos, sua voz doce reverberando em meus ouvidos junto ao som da melhor banda de rock do mundo...


O telefone não parava de tocar.


... Salvando-me; resgatando-me daquele matinal momento perdido, onde eu não era eu. Onde o que eu fazia não era eu a fazer. Onde o que eu queria era nada mais querer... Nada além de estar ali, com ele... Nos braços dele novamente. Segura...


Salva.


Era o instante eternizado no fundo de minha mente. A fronteira final de minhas lembranças. O derradeiro território. A essência da minha alma. O meu sonho mais real. O estar sendo; tendo sido, para sempre... Perfeito. O Nirvana...


A mentira.


Brotavam então as cenas que se misturavam à realidade daquele sonho; como se tudo fosse um devaneio irreal; mesmo que irremediavelmente verdadeiro. Os flashes, sussurros, gemidos... Os corpos em cima do meu... Dançando como que enlouquecidos. Enlouquecida. O entra e sai lúdico, sentimentais espasmos cleptomaníacos. Roubando-me de mim mesma; assaltando-me, levando-me... Munidos apenas da arcaica sofreguidão.


E desespero.


Alçando um vôo imaginário chegava ao fim de mais aquela noite, em silêncio profundo. E do mundo, lá de onde saltara rumo ao meu, vinha o som do telefone que me caçava e enlaçava como a um objeto sem graça, sem vida... “Fria”, um toque me dizia. Lá do fundo... Da superfície plana e macia, a me olhar de cima; superficialmente.


O espelho.


Encarava os olhos que me encaravam e não me viam; que enxergavam apenas a imagem despontada, com extrema apatia. “Frígida?”; “Insensível?...” Como eles ousavam acusar-me enquanto eu não apontava ninguém?! Eu não recusava ninguém! Irritava-me isso... Mesmo. Queria fechar os olhos novamente.


Mas eu já era refém...


Tentava sair dali; daquele emaranhado de restos, noites... Daquela fartura de carnes, guimbas, sexos... Daquele vazio compulsivo e gelado. Meu corpo é que já não aceitava mais. Meus olhos, naquele amórfico pedaço de vidro, também não brilhavam mais. Minha mente, disforme, já não me refletia mais...


Estava doente.


Física, mental e espiritualmente. A fuga, remédio ineficaz, já não me levava adiante. Não mais. Queria atirar longe aquele maldito telefone que não parava de tocar, avisando sobre o término de mais um período... Mais um pedaço vendido. Perdido. Não conseguia achar minhas roupas, nem apoio nas paredes que me cercavam. Que conspiravam, me prendiam; delatavam...


Queria era poder ir embora.


O corpo tombado, vencido; o olhar a fixar-se numa cadeira vazia. Solitária como cada um ali dentro daqueles quartos, a esperar por um colo que nunca viria. Sabia muito bem disto... O gosto amargo na boca, a azia... Eu queria muito sair dali, de qualquer jeito; simplesmente levantar e caminhar. Quebrar aquele espelho. Atravessar aquela porta. Sem rumo ou plano. Mesmo sem volta.


Eu só queria ir embora...


* * *